quarta-feira, maio 16, 2007

mãos

mãos procurando
sonhos?
só tem um jeito:
"photoshop"



Sandra Falcone

segunda-feira, maio 14, 2007

Uma história de amor

Um lindo e doce poodle – extremamente amado pela sua família – estava doente, muito doente. De repente os seus rins pararam de funcionar. Sentia muitas dores, mas não chorava, sentia a aflição e dor da sua dona, não queria preocupá-la ainda mais. Agüentou o quanto pode. Não tinha mais forças, nem para abanar o rabinho. Numa quarta-feira, quando sua dona chegou ao hospital, conseguiu com extraordinária dificuldade dar uma lambida de despedida. Ficaram abraçados até que a injeção dada pelo veterinário surtiu efeito. Aos pouquinhos a dor foi desaparecendo até que desapareceu de vez. Tudo ficou muito quieto. Quando novamente abriu os olhos estava montado numa estrelinha, lá no céu. Gostou muito da estrelinha, aliás só podia gostar, não tinha sido coincidência o nome adotado pela sua dona, Bilac – aquele poeta que sabia ouvir e entender as estrelas. No entanto, apesar de se sentir profundamente bem e confortável, sentia muitas saudades da sua dona e sabia que ela também. Afinal, oito anos de amor profundo entre os dois, uma história tão bonita... as viagens, os passeios na praia à noite... Gostava do mar como sua dona, como era gostoso entrar no mar nas madrugadas! É verdade que a dona ficava bem chateada com as marcadas de território que costumava dar, principalmente nos sapatos dos amigos, mas ele sempre dava um jeito de compensar. Escrevia crônicas quando ela não estava inspirada. Deitava nos seus pés, dava dois latidos, uma lambida e pronto: a dona começava a psicografar seus pensamentos. Momentos inesquecíveis.


Um dia, com aquela tristeza como um balão cativo às suas costas, resolveu conversar com sua estrelinha. Ela tem tanta luz (pensou) e luz é sabedoria. Antes que pudesse se manifestar, a estrelinha num sorriso compreensivo falou: meu amigo querido, sei da sua saudade, da sua dor e da sua preocupação com sua dona, desde o instante que você veio pra cá. Mas não se preocupe, desde o dia que foi determinado para sua viagem de volta fizemos uma conferência com outras estrelas e, sabendo o quanto seria difícil essa separação, tanto pra você como para sua dona, começamos a procurar um outro amiguinho que pudesse, não substituir você, mas aliviar a dor da sua dona. Depois de muito procurar, soubemos por uma outra estrela que estava pra nascer uma cadelinha, fruto de um amor proibido entre um bassê cor de mel e uma pinscher, num descuido da criadora. E assim foi. Daquele amor proibido nasceu um único filhote. Herdou do pai e da mãe a cor de mel e um pouco das feições dos dois; do pai, a estrutura do corpo; da mãe, as orelhas e as pernas cumpridas e magrelas. Uma misturança só. Naquele canil de pedigree não tinha lugar. Era uma mestiça, para não dizer uma vira-lata.
Depois de muito refletir, pedimos a ajuda do Elfinho (anjo- da-guarda da sua dona) e fizemos um pacto com ele, de modo que a sua dona, de alguma forma chegasse até a cadelinha. Uns dias após a sua partida, todos os amigos da sua dona preocupados com a sua perda, mandaram muitos e-mails, indicando vários canis. Ela no começo ficou até revoltada, como poderiam imaginar que ela substituiria você? Mas o Elfinho tomou conta dos dedos dela e fez com que abrisse um dos e-mails. Era o canil onde tinha nascido aquela mestiça. Conversa vem conversa vai, a criadora acabou contando que tinha uma cadelinha sem pedigree rejeitada, que ninguém queria. A sua dona, muito a contragosto, acabou concordando em receber uma foto da tal mestiça. Achou a cadelinha esquisita, mais parecia um morceginho-cachorro. No dia seguinte a criadora levou a cadelinha para sua patroa conhecer e mal a bichinha chegou foi logo saltando para o colo dela. Agora está lá, na sua antiga casa.

Bilac, ouvindo a história, ficou um pouco ciumento, mas como amava profundamente a sua dona deixou seu egoísmo de lado e perguntou: e essa tal cadelinha-morcega é boa gente? carinhosa? A estrelinha, então, sem responder pegou uma bola de cristal e entregou ao Bilac: veja você mesmo! E o que o Bilac viu?

Viu uma cadelinha-morcego, extremamente alegre, brincalhona, carinhosa, meiga, lambendo sua dona logo às oito horas da manhã, virando a barrigudinha pra cima para receber carinho, fazendo xixi no jornal (coisa que ele jamais fez).

Ainda um pouco ciumento, resmungou: qual o nome dessa cadela-morcega? A estrelinha sorridente respondeu: Vitória ... e tem mais, nasceu no mesmo dia do aniversário da sua dona. Bilac então sorriu, feliz...

Depois foi se aninhar num cantinho da estrelinha para uma soneca, antes, porém, como de costume, marcou território!

Sandra Falcone
ao meu inesquecível Bilac

Porque é domingo



Tá certo que é domingo (olhando pela janela ) tá certo que o domingo é chuvento, ou chuvoso, sei lá, chove pra caramba, nossa! Melhor fechar a janela. Puxa vida, quanta janela fechada. Chuva não é tão ruim assim...Nunca senti vontade de dormir com chuva, mesmo quando intermitente. Minha vontade é tirar os sapato e sair correndo pela rua. Mas fico aqui, olhando a chuva, pela janela. Às vezes tenho raiva da janela. Outra tarde uma pombinha ficou me olhando do lado de fora. Ficamos bem um segundo nos olhando, olho no olho, foi estranho, me senti observada, como se observa um bicho no zôo. No caso bicho era eu, afinal ela é quem voava.
Um pouco nojento o que vou dizer, mas quando vejo uma pomba fazer suas “necessidades”em plena Av.Paulista na cabeça de algum executivo, tenho vontade de me jogar no chão, tanto acho engraçado. Geralmente tão empombados, arrumados, engravatados ,indiferentes ao que se passa na rua, a miséria... Fazem cara de nojo quando o mendigo e aproxima. No entanto, “chuap”, a “pomba” sem o menor respeito, larga aquela coisa gosmenta, amarela. Deus é pai... se é... Pompa tem uma missão....vamos dizer, vingadora... Se tem... E como tem... Eu jamais, jamais, atravesso a rua desavisada e,assim mesmo, já fui acertada uma ou duas vezes... Brrrr....

Respirando fundo, fumando um cigarro ( tosse )O Bilac latindo... (tosse) .O Bilac latindo pra cachorro !!!

O Zelador no interfone estava todo atrapalhado, coitado, mas a D. Sindica mandou... afinal é domingo, nada de barulho...está no regulamento do prédio.Que posso fazer? Nada. Pedi desculpas pra D. Sindica , é claro. Esqueci de avisar que hoje é domingo,mas farei isso, imediatamente... O Bilac começa a latir amanhã , das 8:00 até ás 18: horas, observado duas horas para almoço e sem direito a horas extras. Sábado das 8:00 às 12:00 horas.
Nossa! aquela margarida artificial no vaso parece de verdade! Vou tirar a sorte, com a tesoura é claro: bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer....

O vizinho do prédio vizinho esta berrando na janela: manda esse cachorro calar a boca, porra, hoje é domingo, quero dormir!

Bilac, cala a boca ... Hoje é domingo, pô. Quer um pedaço de bolo de fubá? Tá uma delícia.

Mal me quer, bem me quer, mal (tosse)...
Sandra Falcone



sábado, maio 12, 2007

Reality show




Quando assisto aos “eventos” dos nossos representantes penso que as televisões brasileiras gastam fortunas em “royaltes” sem necessidade. Aliás, nesse sentido, estamos mais para exportadores do que para importadores de “reality shows .Estou me referindo ao “show” da quarta-feira, dia 9 deste mês, na Câmara Federal. Show, repito, para ninguém botar defeito: o deputado Clodovil chamando uma outra Deputada de feia, a Deputada debulhando-se indo chorar suas pitangas para o Presidente da Mesa, o Presidente da Mesa, aprovando uma representação conta o Clodovil e que tais e afins.


À propósito da Deputada que até passou mal: que bobagem! chorar e passar mal porque alguém a considera feia, no seu conceito de beleza! Na minha opinião o feio se manifestou sob dois aspectos: na atitude grosseira do Deputado Clodovil e na falta de equilíbrio da Deputada, tendo chiliques por algo tão sem importância. Se a ofensa fosse outra até entenderia. Ela não estava ali como mulher, estava como Deputada, ser bonita ou feia, no aspecto físico, não tem a menor relevância. Mas enfim, foi um verdadeiro fiasco!


Nesse fiasco todo os nossos representantes preocupados com os conceitos de beleza (física naturalmente, porque nos outros... bem... fico quieta) tomaram não só as dores da Deputada como e também as suas e, infelizmente, as nossas, ás avessas .Aproveitando que a mídia estava ocupada com a chegada do Papa paparam mais uma vez os nossos bolsos. Faz algum tempo tentaram um aumento de 91% , frustrados na iniciativa em decorrência da forte oposição da opinião pública em geral, trataram de baixar suas expectativas (por enquanto) para 28,53%. É incrível: quando se trata dos seus próprios interesses como são ligeiros! Bota presteza nisso!


Não que eu ache que R$16.512,00 seja um salário desproporcional, considerando um cargo de tamanha envergadura, embora, naturalmente, o salário é muito maior, considerando não só os “indiretos” como o tempo de dedicação. Trabalham três dias por semana (eu disse trabalham? caramba estou boazinha hoje, acho que é o Papa). O problema não é esse! Está na contra-partida dos “investimentos “ que nós cidadãos comuns (a grana sai dos nossos bolsos ) recebemos, nesse costumeiro e usual “reality show” de todos os dias, onde o interesse público vem em último lugar, quando vem !A minha memória não é curta, diferentemente da minha paciência de cidadã. E não sou ruim de matemática. Sei contar. Quanto tempo perdido na peleja dos governistas que não queriam a CPI do apagão? e por conta dessa peleja quanto os oposicionistas deixaram de aprovar projetos de relevância? Sempre nesse toma-lá-da-cá?


Enquanto isso no telejornal da manhã eu verifico um menininho de nove anos, em Brasília, esperando uma UTI há oito anos e um outro irmão-cidadão contar que o pai morreu porque não havia UTI disponível.

Realmente o Brasil precisaria investir mais em propaganda pela quantidade de “realitys shows” que protagoniza diariamente, talvez os “royaltes “ equilibrassem a balança comercial.


Ainda bem que tenho a poesia. Assim monto nos versos do Mário Quintana (Poeminha do Contra) e consigo vislumbrar minha esperança na pombinha que vejo da minha janela , pendurada num fio elétrico . Afinal ela pode voar, não? E quem sabe um dia eu também, como cidadã.


Eles passarão
Eu passarinho


Sandra Falcone


querida Sandra, ou seja, neste reality show, só os fracos continuam indo para o paredão.compartilho de tudo isso, mas fico triste, pequena, pensando em minha (in)capacidade do que mais fazer, além de passarinhar com água no bico em meio ao incêndio da floresta.o quê?onde está nossa força?onde está nossa gana?onde moram nossa revolta e nossas avessas? hoje a Comissão do Senado conseguiu rir de um rap dos RAcionais MC's que o Suplicy interpretou para ilustrar que o problema do banditismo na juventude não é exatamente falta de prisão. o que é ridículo nessa história? será o excesso de humor?o mais intrigante é que ainda existe uma fé esquisita que move tudo isso, coisa que às vezes mais parece idolatria, como se cuidar do espírito (individual e comunitário) fosse como torcer para um time de futebol ou estar na voga da banda musical do momento, inda mais se o ídolo pop-star envolto em túnicas portanto 15km de fios de ouro bordado, aquele que não pode ver os mendigos brasileiros (gente feia? suja? perigosa? mal-cheirosa? indesejável?????) dos arredores da Sé aparece na janela e dá um tchauzinho extra pros fãs. e assim caminha a humanidade. que tipo de anestesia estão colocando em nosso leite de caixinha?beijo grande,saudades

Lilian Alves


Em primeiro lugar grata pela leituras de ambos.

O nosso cotidiano é de contrastes, um povo lindo, muito sofrido e penso, sinceramente, que se lhe fossem dadas as oportunidades mais comezinhas da vida não estaríamos a mercê de tanta violência, de tanta pobreza. Por isso, procuro de alguma forma (através das minhas palavras escritas) fazer alguma coisa, ainda que pouco calem nos corações, pois em função da minha coluna semanal no jornal, recebo muitos e-mails e posso avaliar qual a preferência geral. Um artigo como este, geralmente, não tem muita reciprocidade, pois a realidade dói.

Outro dia um colunista "vip" me escreveu dizendo que eu perdia meu tempo escrevendo temas dessa natureza e deu o Jabor como exemplo (a quem muito admiro ) e dizendo ainda que todos preferem as novelas da Globo. Fiz uma longa réplica (rs) em síntese contestando :que o fato de , aparentemente, preferirem a novela da Globo, onde tudo dá certo, , onde as casas são bonitas, arrumadas, ninguém passa fome, não é alienação do nosso povo, apenas fuga, uma fuga inconsciente: eu não tenho, mas ele tem, a compensação indireta.

Hoje fiquei emocionada com a recepção ao Papa, não pelo Papa, mas pelo nossos irmãos, tão cheios de esperanças, tão propensos à paz, a conciliação, na busca do bem maior. É por isso e, ainda, por tudo que presenciou diariamente, é que luto com minhas palavras para a conscientização, desvinculando-me do meu próprio umbigo.

Sei que artigos como estes ferem, mas prefiro continuar ferindo, porque tenho em contrapartida, pessoas como vc, como o Flavito, como leitores . Brincando: de grão em grão a galinha enche o papa, ops, o papo.

Carinho imenso

Sandra



domingo, maio 06, 2007

fragmentos XII



das tantas
dores humanas
morte
desamor
injustiça
solidão
doenças
abandono
ingratidão


todas de alguma
forma sempre
superamos

com um abraço
um sorriso
um olhar
um gesto
uma palavra
uma lágrima

no entanto existe
uma que é impossível
de superar

a dor de chorar sozinha !

Sandra Falcone

quinta-feira, abril 19, 2007

Minha janela

















Quantas vezes fui até a janela para olhar, com olhos de ver? Poucas. Normalmente para ver a fluência do tráfico ou se estava chovendo. Um olhar egoísta, pensando no meu conforto. A janela que mais olho é a do meu escritório, que fica na avenida Paulista. No entanto, sempre que por alguma razão meu olhar, como agora, é atento e consciente, meu mundo interior é atiçado e eu me sinto mais humana. Parte desse todo de alguéns que caminham, apressados. Onde a única coisa homogênea que noto são as calças jeans, porque cada um é único, singular. Não só no modo de andar, de carregar pacotes e pastas, de gesticular, mas no modo de ser. De lidar com seus fracassos, sonhos, acertos, ideais. De sentir as dores que circulam à sua volta e as suas...

Não muito tempo atrás, a quantidade de anúncios e outdoors deixava-me incomodada. Poluição visual, lavagem cerebral – dizia eu. Um dia percebi que tudo era uma questão de ótica. Hoje não fico incomodada, ao contrário, penso que tudo é o colorido, às avessas, da esperança! Alguém pode estranhar esta esdrúxula comparação, mas se pensar um pouco, vai ver que não é. É lógico que tudo que está aí exposto, uma parte ínfima da população pode se atrever a comprar (eu? nem pensar!), mas nada impede que isso nos faça sonhar, e sonhar, como disse Quintana, é acordar pra dentro. E é isso que precisamos – acordar pra dentro.

Já fui vítima dessa esperança! E aprendi com ela a acordar pra dentro. Estava mais pra lá do que pra cá, querendo pagar alguma coisa que não podia pagar, caminhando em direção a um banco para adiar o vencimento de um empréstimo. Provavelmente, alguma outra janela que me olhava percebia meus passos cansados e meus ombros caídos. Antes de entrar no banco, olhei ao acaso pra cima e vi um anúncio de um produto, num azul intenso... olhando pra mim. Não me lembro do produto, apenas do azul, daquele azul que lá do alto falava alguma coisa para mim. Voltei nos passos, não entrei no banco, não paguei a conta (que não podia pagar). Sabe o que fiz, antes de ligar para o gerente do banco e adiar a entrevista? Pintei uma aquarela todinha em azul e escrevi: minha esperança é azul! A aquarela – de péssima qualidade artística – guardei, como um relicário, na gaveta da minha mesa.

Sempre que meus ombros caem e meus passos ficam cansados, tiro da gaveta a minha esperança. É assim que me vejo olhando, agora, da minha janela, com minha esperança azul e teimosa: a pobreza que verifico, a grande diferença e exclusão social, misturada com a sujeira e o lixo das calçadas, na alma financeira do país, neste conglomerado de bancos, carros importados, camelôs gemendo. Todos sintonizados na mesma dicotomia cotidiana ... E uma controversa sensação de pluralidade e absoluta singularidade me invade. Tenho vontade de gritar: eu estou aqui ! Como se pudesse de alguma forma misturar-me em cada um daqueles corpos anônimos, numa projeção geométrica de solidariedade humana, ainda que física.

Do outro lado da avenida percebo um outro anônimo na sua janela. Apenas um vulto como eu ? Como diria Manuel de Barros: preciso do desperdício das palavras para conter-me.



Sandra Falcone

quarta-feira, abril 11, 2007

Entre brioches e queijos

Entre brioches e queijos


Espero que essa peleja entre governo e controladores de vôo terminem nos selinhos atuais, de modo que o “foco” da discussão seja outro: a instalação, necessária e urgente, da CPI do Apagão Aéreo, sem salamaleques políticos, sem atrasos, com a dignidade de apuração dos fatos - que o povo brasileiro merece. Assistindo de camarote essa quebra de braço entre o governo e os controladores de vôo tenho a nítida impressão de que o governo se aproveita pra jogar fumaça e, assim, desviar a atenção da mídia e do povo brasileiro. O velho e conhecido “panos quentes” . Os controladores de vôo pedem perdão, o presidente perdoa e, no café da manhã desta segunda-feira, entre um brioches e queijos agradece :a todos que contribuíram para que a gente tivesse uma Páscoa de tranqüilidade". Ficaram de-bem , de mãos dadas , CPI pra quê? Esta tudo resolvido, não é?

Aliás, nesse sentido, prevenir antes que remediar. Mais uma vez o governo se descabela para lotear o campo minado que, provavelmente, será essa CPI do Apagão Aéreo, caso a mesma venha a ser deliberada pelo Supremo Tribunal Federal. Em decorrência de regimento interno os governistas devem indicar dezesseis das vinte e quatro vagas da comissão. Fico arrepiada com esses números, considerando a “boa vontade “ dos governistas na instalação dessa comissão, boa vontade essa muito bem pontuada na desculpa esfarrapada do relator do recurso do PT contra a CPI ( Colbert Martins -PMDB-BA) que, entre outros argumentos furados, alega : fatos vagos ou imprecisos, bem como meras conjecturas, não podem constituir objeto da investigação parlamentar. Para a efetivação do direito da minoria, é indispensável que se encontrem presentes os requisitos para a instauração da investigação". Caramba! É muita cara-de-pau! Meras conjecturas? O que posso argumentar com quem antes de mudar de partido (era PPS) foi favorável á instalação da comissão? Talvez um tímido comentário, enquanto me jogo no chão e me finjo de morta, como cidadã: eu, hein? tabom...sei ! E o senhor deputado José Genoino (PT-SP), que defende tanto a não instalação da comissão? Não chega as cuecas? Não foi o suficiente? Quer mais? Ou será que a sua memória escafedeu-se? Quem em 1999 falou e disse , quando arquivaram o pedido de instalação da CPI dos bancos: a maioria não pode impedir uma investigação em nenhum Parlamento do mundo" , tendo afirmado :é uma vergonha uma CPI não ser instalada por decisão da maioria. Devolvo-lhe, como cidadã, a mesma pergunta que fez á época: "onde é que estamos? que democracia é essa?
Os atrasos de vôos e toda a problemática dos controladores de vôos já foram expostos em minúcias, todo mundo está careca de saber que ligados à estrutura da gestão atual, inclusive apontado em entrevista pelo presidente da Associação Brasileira dos Controladores de Tráfego Aéreo (Wellington Rodrigues , que entre outras coisas afirmou : “precisamos trazer paz aos controladores para que eles voltem a trabalhar com paz. Um controlador desconcentrado é extremamente perigoso” ...” é um problema de gestão que estamos trazendo para a sociedade, não uma questão salarial. O que queremos é uma nova estrutura de gerenciamento do controle de tráfego aéreo que existe no mundo todo. Estamos na contramão desse modelo de gestão” .
O que acontece, na verdade, é que a comissão não ficará restrita aos atrasos de vôo,nem a insubordinação ou não de controladores de vôos e acertos salariais. Contratos serão examinados, licitações apuradas , sigilos bancários quebrados e que tais e afins. É esse é o pavor do governo, não consigo entender outra razão. Essa história de que a oposição pretende manchar a imagem do governo é risível: a imagem do governo é apenas o reflexo do espelho do nosso cotidiano brasileiro. Tratem de mudar a maquilagem e não coloquem a culpa no espelho! Ou será que o prego no sapato está na razão direta daquele conhecido e incontroverso ditado popular? É isso? Quem não deve não teme?


Sandra Falcone