Domingo, Novembro 08, 2009

poema da loucura


aqui onde estão os versos que escrevo
trago uma faca afiada
e se for preciso ainda que
custe o eterno exílio
esfaqueio até a morte
todas as palavras secas
estéreis de emoção
e gravo a fogo no peito
um imenso sim
para a loucura
que é viver
por viver
simplesmente
agora !
Sandra Falcone

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

O "az" !




Todo o seu sonho sempre se resumira: um lar, filhos e um bom homem ao seu lado, honesto, trabalhador e, fundamentalmente, provedor. O mais era periférico: dinheiro, viagens, etc. etc..No entanto, aos 50 anos, tinha, exclusivamente, os periféricos. Mulher de muitos amores, no entanto, todos abortados pelos periféricos. Não mais de uma vez ouvira: essa Luiza é muita areia pro meu caminhão. Apesar dos pesares não desistia. Quantas e quantas vezes não percebia, no olhar da amiga, da prima e da irmã, a inveja pelos seus periféricos? Quantas e quantas outras vezes não tinha vontade de gritar : tudo o que quero é um vida igual a vocês.Um dia ele chegou. Um homem de fala mansa, hábitos simples, aposentado, um pouco caído para a idade. Superou todas as diferenças que dia a dia se acentuavam, especialmente na cama. Na verdade ele era uma lástima, de 0 a 10, no máximo: 0,05. Mas fez com que ele sempre achasse que era 10. Convencido e maravilhado da sua capacidade recém descoberta (um az na cama) trocou-a pela primeira jovem de 25 que encontrou. Evidentemente a jovem deu a nota certa. Separam-se. Atualmente é um assíduo freqüentador de centros espíritas de toda a natureza. Esta tentando desenvolver-se. `As sextas-feiras, invariavelmente, mata um galo preto e larga nas encruzilhadas da periferia. Para os amigos mais íntimos, inconformado, confidencia: nunca acreditei em macumba, mas, depois que deixei Luiza, foi preciso. Mulher trocada é um perigo. Fez um trabalho pesado contra mim, podem acreditar, não consigo mais me ajustar com nenhuma mulher.
Sandra Falcone

fragmentos - XX

quando esta porta se fechar
e meus versos poucos
se dissiparem na poeira do tempo
quero apenas exalar
um cheiro de jasmim
na saudade de alguém



sandra falcone

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Galismo? Não, vampirismo!



Tem-se notícia que a Juíza da 5ª. Vara Fazendária de João Pessoa concedeu liminar autorizando briga de galos no Estado. No seu absurdo despacho atendeu a um pedido da Associação de Criadores e Expositores de Raças Combatentes da Paraíba entendendo que seus sócios estão impedidos de praticar o esporte galismo, acrescentando nas suas justificativas que se trata de um esporte milenar.

Chamar de esporte essa barbárie? Ferir e mutilar animais de qualquer espécie, submetê-los aos maus tratos de uma maneira ignóbil é esporte? Só se for na cabeça dessa senhora que não tem o menor senso de humanidade. Alega ainda que não há no ordenamento jurídico vigente e norma que proíba a prática do esporte denominado popularmente de briga de galo. E precisaria minha D. Juíza? Mesmo se não houvesse lei federal que criminaliza os maus-tratos?

O que me espanta é a indecente justificativa da Associação de Criadores e Expositores de Raças Combatentes da Paraíba que tem a desfaçatez, para não escrever algo muito mais pesado,de invocar a Constituição brasileira como lastro da sua bandeira tarjada com o sangue dos pobres animais: "ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal". E ainda tem a petulância de dizer que as autoridades são pressionadas ou mal informadas.

E de pensar que este entendimento não é isolado, que Desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso justificaram manutenção das rinhas de galo como sendo "cultura nacional" e que nos últimos 11 anos foram três julgamentos, todos favoráveis à associação que mantém a rinha, dando guarida a lugares imundos, indefesos animais se digladiando, com homens gritando selvagemmente, enquanto os animais sangram , apostando dinheiro?! Galismo? O que é isso gente! São vampiros fantasiados de desportistas.

Cultura Nacional? Vergonha Nacional, isso sim. Retrocesso vil.

Esporte?Caramba, usar esse santo nome em vão, deveria tipificar crime hediondo e inafiançável. Onde o galismo contribui para a formação, desenvolvimento, aprimoramento físico, intelectual e psíquico dos praticantes e espectadores. Cria identidade esportiva para a inclusão social?
Só mesmo recorrendo a alguns versos de Antero de Quental para encontrar alento!

(*)... Sim, montes! onde vamos? onde vamos,
Que a criação, em volta a nós pasmada,
Emudece de espanto, se passamos
Em novelos de pó sobre essa estrada?...
As águias do rochedo, e a flor, e os ramos,
E a noite escura, e as luzes da alvorada,
Perguntam que destinos nos consomem...
E os astros dizem onde vai o Homem? ...”

(À HISTÓRIA/III/ANTERO DE QUENTAL

Texto: Sandra Falcone



Quarta-feira, Outubro 28, 2009

desencontro

quando o tempo
no seu paradoxo
anda célere
mas lento para o ancião
preso no soslaio da sua janela

lembro dele
ainda menina
era um príncipe


Ah! como eu sonhava
crescer rápido
e virar princesa

se eu pudesse
agora
frente à impiedosa fragilidade
desse corpo que agoniza
numa carícia muda eu diria:
não importa o desencontro
e que jamais saibas

fui a sua princesa
e você o meu príncipe

este sonho que me abraçou tão menina
acalentará a minha fragilidade
quando a minha janela
for igual a sua


Sandra Falcone

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Paradoxo

ainda que qualquer um
dos meus atos
gestos
passos
possam parecer
afinados no mesmo compasso
da minha calçada de todos os dias
ébria de espanto
a cada passo
a cada gesto
a cada ato
não saberei
se estou partindo
ou regressando
desta outra
que a cada dia eu sou !


poema: Sandra Falcone

Domingo, Outubro 25, 2009

segunda-feira


A segunda-feira é encantadora.

Sempre achei engraçado começar o primeiro dia da semana pela segunda. Quando menina, perguntava para o meu pai e depois para as professoras: qual a lógica? A primeira é a segunda? Nunca me explicaram nada. Aliás, noto que desde menina ando enrolada nas perguntas sem respostas. Pensando bem, que graça têm as respostas?

A segunda-feira carrega um fardo enorme. Você conhece alguém que comemora a conclusão de um projeto em plena segunda-feira? Duvido. Você assina aquele contrato maravilhoso, ganha uma grana que resolve a sua vida e o que diz? Nesta sexta-feira, ou sábado, vamos comemorar, hein? Alguém lembra da pobrezinha para uma festa? Nem no próprio aniversário: geralmente se antecipam as comemorações para os fins de semana.

Se você tem alguma coisa que não tem a mínima vontade de fazer, não vai empurrando para a segunda-feira? Eu, sinceramente, empurro. Se eu fosse a segunda-feira proibiria jogos de futebol aos domingos. Torcedor perdedor na segunda-feira é dose.

Estava eu numa certa ocasião de férias, na praia, conversando com um marzão azul e barulhento. E o que pensei? Pensei que era segunda-feira e que eu estava ali, desfrutando, como diria o nordestino. Sentia-me poderosa, conversar com o mar em plena segunda-feira era demais! Na terça-feira já não teria o mesmo sabor. Domingo então, nem se fale! A coitada da segunda-feira agüenta tudo, até ser desprestigiada e virar um feriado prolongado, um anexo do domingo.

Se promessa pagasse imposto, a segunda-feira seria milionária. A minha última foi de amargar. Além de pegar o trânsito da segunda-feira, encontrei o meu patrão num mau humor do cão, daqueles típicos da segunda-feira e, revoltada e descondensada, quebrei meu regime logo na segunda-feira, comi uma lata de bolacha doce das 9 às 10 horas. Que coisa! estava tão animada! Vou ter que começar tudo de novo, na próxima segunda-feira, é evidente!

Mas a segunda-feira tem a paciência de Jó. Apesar de tudo sempre chega, faça frio ou faça sol, insistente, determinada. Depois do domingão quem aparece? A segunda-feira!

Mas sabe que gosto da segunda-feira? Verdade! Gosto sim. Exatamente por isso, porque ela tem o que na maioria das vezes, eu pelo menos, não tenho: paciência, determinação. Alguém me disse certa vez que a segunda-feira é lerda. Será que lerdeza significa levar as suas horas numa boa?
Na verdade a segunda-feira é genial, pois permite que eu me livre dela nesta crônica maluca, um minuto antes da terça-feira. E não dá um piu.
texto: sandra falcone