sábado, maio 19, 2007

Rivalidade


a chuva gosta de chorar na minha janela
vem sempre
eu deixo
antes
quando nãotinhamos tanta intimidade
incomodava-me
adivinhando minhas lágrimas
vinha sempre com as suas
não gostava
parecia querer provar
a pequenez das minhas na exuberância das suas
fechava logo as janelas
mas era insistente
ficava lá
precavida um dia já quando se anunciava
fui mais rápida com as minhas
chamei todas!
foi tão discreta e paciente
ficou na espera
nem e se aparoximou
mas stodas as minhas
não mais me atenderam
não tinham coro
nem companhia
não tive jeito!
sandra falcone
retraços de mulher/1998

quinta-feira, maio 17, 2007

Farfarella


Era um pastor de ovelhas profundamente solitário. Não tinha família... ninguém. Seu único bem, uma flauta, uma velha flauta que tinha achado e que aprendera a tocar sozinho.
Nos fins de tarde, quando as ovelhas dormitavam e a Colina preparava-se para receber a Noite, entoava na flauta a sua solidão em doces e melancólicas melodias. Eram momentos mágicos. A Colina ficava silenciosa e atenta. Até mesmo um bando de frágeis borboletas ficava zanzando até que a Brisa avisava que a Noite já abraçava a Tarde. E elas corriam para o seu refúgio, com medo do senhor Frio, que era implacável.Tantas foram as Tardes que uma Borboletinha minúscula, branquinha, quase invisível, apaixonou-se perdidamente pelo Pastorzinho. Temerosa e tímida, misturava-se nas flores do campo, ouvindo, apaixonada, suas canções.
Uma tarde a Borboletinha, quando alcançou a Colina, não escutou a flauta do seu amor . Preocupada, aproximou-se bem de mansinho. O seu ínfimo coração doeu brutalmente quando viu que seu amado dormia abraçado por uma tristeza tão grande que o Céu compadecido chorava. Todo o imenso amor que sentia explodiu, arrebatando-a. Não resistindo, beijou e acariciou o seu amado, com uma ternura e um amor tão infinito, que o Infinito tornou-se insignificante.
Na manhã seguinte, o Pastorzinho despertou com uma sensação indescritível. Sabia que tinha sonhado um sonho lindo, mas foi incapaz de lembrar. Ficou dias e dias assim, querendo lembrar do sonho e nessa busca desesperou-se. Não tocava mais sua flauta. Abandonou as ovelhas à própria sorte e esqueceu de dormir.Todos os habitantes da Colina perguntavam, queriam ajudar, mas o Pastorzinho não ouvia ninguém, não queria contar o seu segredo. Estava cada dia mais triste, e a Colina acabou se entristecendo também. As flores foram murchando, os pássaros não cantavam mais , o Carvalho cada vez mais curvado.
Numa tarde, muito tempo depois, fraco, sem nenhuma resistência, fechou os olhos e lamentando a sua sorte acabou adormecendo. A Borboletinha apaixonada aproveitou e foi até o seu amado, tentando reanimá-lo. Ficou tanto tempo ali que não percebeu que a Noite já havia chegado e com ela o senhor Frio. Trêmula de emoção, entendendo que não tinha a menor condição de resistir, acatando o seu destino, despediu-se da vida e, com toda a ternura e amor do seu coraçãozinho já muito fraquinho, pousou o seu último alento nos lábios do seu amado. Ao leve roçar da Borboletinha, mesmo dormindo, o Pastorzinho entreabriu os lábios e um sorriso que estava há muito tempo escondido aproveitou a boca semi-aberta e fugiu daquela tristeza intermitente.
No dia seguinte, o Pastorzinho despertou cheio de vida. O cansaço havia desaparecido completamente. Cuidou das suas ovelhas, tocou a sua flauta, com aquele sorriso fujão pregado nos lábios, falando e cantando aos quatro Ventos, contagiando toda a Colina. As Sementinhas saíram dos buracos, transformando-se em flores silvestres cheirosas, os pássaros voavam alegres, a brisa dançava pela relva, um Arco-Íris chegou todo colorido, enquanto Nuvenzinhas sapecas brincavam de pega-pega no Céu.
Se você quiser encontrar o Pastorzinho vá até a Colina. Tenho certeza que vão ser bons amigos.Ele gosta muito de conversar, é muito alegre! Mas se chegar à noitinha, não faça barulho. Ele gosta de dormir. Quando dorme sonha com uma Fada. Quando acorda não lembra do sonho, mas perdeu a mania de querer lembrar. Entendeu que o seu sonho não precisa ser lembrado, apenas sentido no fundo do coração.
Gosta de todos os habitantes da Colina, mas tem uma preferência pelas borboletas, especialmente as pequeninas, frágeis e branquinhas. Nunca entendeu o porquê!
Sandra Falcone

Melissa



entre a aurora e o poente
desabrochou Melissa
adivinha na luz difusa
um novo mundo

se aninha docemente
nos braços da mãe
e chora
comovida
agradecendo a vida



com meu carinho
em 30 de abril de 2007

Sandra Falcone

quarta-feira, maio 16, 2007

entrega


a minha solidão
de mulher
sempre viveu
nas quatro paredes
da minha intimidade
(enclausurada)
até o dia que deixei
a porta entreaberta
e você entrou
(sem estardalhaço)

sorrindo de emoção
aconcheguei-me

toquei suas mãos
(estavam vazias)

então alcancei seu olhar
(estava opaco)

mas você recendia a Vida!

procurei sua boca
(estava cansada)

ainda tentei seu corpo
(mas já era tarde)

a minha solidão voltava
forte, senhora
(soberana)

tomando o seu lugar
trancou a porta
fechou as cortinas
e docemente
envolveu-me num abraço
(seco)

eu
mais uma vez
cativa
(entreguei-me)

Vitória


Minha cadelinha-morcego!
Neste momento a grande paixão da sua vida
é este lenço de seda colorido !
Sandra Falcone

mãos

mãos procurando
sonhos?
só tem um jeito:
"photoshop"



Sandra Falcone

segunda-feira, maio 14, 2007

Uma história de amor

Um lindo e doce poodle – extremamente amado pela sua família – estava doente, muito doente. De repente os seus rins pararam de funcionar. Sentia muitas dores, mas não chorava, sentia a aflição e dor da sua dona, não queria preocupá-la ainda mais. Agüentou o quanto pode. Não tinha mais forças, nem para abanar o rabinho. Numa quarta-feira, quando sua dona chegou ao hospital, conseguiu com extraordinária dificuldade dar uma lambida de despedida. Ficaram abraçados até que a injeção dada pelo veterinário surtiu efeito. Aos pouquinhos a dor foi desaparecendo até que desapareceu de vez. Tudo ficou muito quieto. Quando novamente abriu os olhos estava montado numa estrelinha, lá no céu. Gostou muito da estrelinha, aliás só podia gostar, não tinha sido coincidência o nome adotado pela sua dona, Bilac – aquele poeta que sabia ouvir e entender as estrelas. No entanto, apesar de se sentir profundamente bem e confortável, sentia muitas saudades da sua dona e sabia que ela também. Afinal, oito anos de amor profundo entre os dois, uma história tão bonita... as viagens, os passeios na praia à noite... Gostava do mar como sua dona, como era gostoso entrar no mar nas madrugadas! É verdade que a dona ficava bem chateada com as marcadas de território que costumava dar, principalmente nos sapatos dos amigos, mas ele sempre dava um jeito de compensar. Escrevia crônicas quando ela não estava inspirada. Deitava nos seus pés, dava dois latidos, uma lambida e pronto: a dona começava a psicografar seus pensamentos. Momentos inesquecíveis.


Um dia, com aquela tristeza como um balão cativo às suas costas, resolveu conversar com sua estrelinha. Ela tem tanta luz (pensou) e luz é sabedoria. Antes que pudesse se manifestar, a estrelinha num sorriso compreensivo falou: meu amigo querido, sei da sua saudade, da sua dor e da sua preocupação com sua dona, desde o instante que você veio pra cá. Mas não se preocupe, desde o dia que foi determinado para sua viagem de volta fizemos uma conferência com outras estrelas e, sabendo o quanto seria difícil essa separação, tanto pra você como para sua dona, começamos a procurar um outro amiguinho que pudesse, não substituir você, mas aliviar a dor da sua dona. Depois de muito procurar, soubemos por uma outra estrela que estava pra nascer uma cadelinha, fruto de um amor proibido entre um bassê cor de mel e uma pinscher, num descuido da criadora. E assim foi. Daquele amor proibido nasceu um único filhote. Herdou do pai e da mãe a cor de mel e um pouco das feições dos dois; do pai, a estrutura do corpo; da mãe, as orelhas e as pernas cumpridas e magrelas. Uma misturança só. Naquele canil de pedigree não tinha lugar. Era uma mestiça, para não dizer uma vira-lata.
Depois de muito refletir, pedimos a ajuda do Elfinho (anjo- da-guarda da sua dona) e fizemos um pacto com ele, de modo que a sua dona, de alguma forma chegasse até a cadelinha. Uns dias após a sua partida, todos os amigos da sua dona preocupados com a sua perda, mandaram muitos e-mails, indicando vários canis. Ela no começo ficou até revoltada, como poderiam imaginar que ela substituiria você? Mas o Elfinho tomou conta dos dedos dela e fez com que abrisse um dos e-mails. Era o canil onde tinha nascido aquela mestiça. Conversa vem conversa vai, a criadora acabou contando que tinha uma cadelinha sem pedigree rejeitada, que ninguém queria. A sua dona, muito a contragosto, acabou concordando em receber uma foto da tal mestiça. Achou a cadelinha esquisita, mais parecia um morceginho-cachorro. No dia seguinte a criadora levou a cadelinha para sua patroa conhecer e mal a bichinha chegou foi logo saltando para o colo dela. Agora está lá, na sua antiga casa.

Bilac, ouvindo a história, ficou um pouco ciumento, mas como amava profundamente a sua dona deixou seu egoísmo de lado e perguntou: e essa tal cadelinha-morcega é boa gente? carinhosa? A estrelinha, então, sem responder pegou uma bola de cristal e entregou ao Bilac: veja você mesmo! E o que o Bilac viu?

Viu uma cadelinha-morcego, extremamente alegre, brincalhona, carinhosa, meiga, lambendo sua dona logo às oito horas da manhã, virando a barrigudinha pra cima para receber carinho, fazendo xixi no jornal (coisa que ele jamais fez).

Ainda um pouco ciumento, resmungou: qual o nome dessa cadela-morcega? A estrelinha sorridente respondeu: Vitória ... e tem mais, nasceu no mesmo dia do aniversário da sua dona. Bilac então sorriu, feliz...

Depois foi se aninhar num cantinho da estrelinha para uma soneca, antes, porém, como de costume, marcou território!

Sandra Falcone
ao meu inesquecível Bilac