domingo, outubro 25, 2009

segunda-feira


A segunda-feira é encantadora.

Sempre achei engraçado começar o primeiro dia da semana pela segunda. Quando menina, perguntava para o meu pai e depois para as professoras: qual a lógica? A primeira é a segunda? Nunca me explicaram nada. Aliás, noto que desde menina ando enrolada nas perguntas sem respostas. Pensando bem, que graça têm as respostas?

A segunda-feira carrega um fardo enorme. Você conhece alguém que comemora a conclusão de um projeto em plena segunda-feira? Duvido. Você assina aquele contrato maravilhoso, ganha uma grana que resolve a sua vida e o que diz? Nesta sexta-feira, ou sábado, vamos comemorar, hein? Alguém lembra da pobrezinha para uma festa? Nem no próprio aniversário: geralmente se antecipam as comemorações para os fins de semana.

Se você tem alguma coisa que não tem a mínima vontade de fazer, não vai empurrando para a segunda-feira? Eu, sinceramente, empurro. Se eu fosse a segunda-feira proibiria jogos de futebol aos domingos. Torcedor perdedor na segunda-feira é dose.

Estava eu numa certa ocasião de férias, na praia, conversando com um marzão azul e barulhento. E o que pensei? Pensei que era segunda-feira e que eu estava ali, desfrutando, como diria o nordestino. Sentia-me poderosa, conversar com o mar em plena segunda-feira era demais! Na terça-feira já não teria o mesmo sabor. Domingo então, nem se fale! A coitada da segunda-feira agüenta tudo, até ser desprestigiada e virar um feriado prolongado, um anexo do domingo.

Se promessa pagasse imposto, a segunda-feira seria milionária. A minha última foi de amargar. Além de pegar o trânsito da segunda-feira, encontrei o meu patrão num mau humor do cão, daqueles típicos da segunda-feira e, revoltada e descondensada, quebrei meu regime logo na segunda-feira, comi uma lata de bolacha doce das 9 às 10 horas. Que coisa! estava tão animada! Vou ter que começar tudo de novo, na próxima segunda-feira, é evidente!

Mas a segunda-feira tem a paciência de Jó. Apesar de tudo sempre chega, faça frio ou faça sol, insistente, determinada. Depois do domingão quem aparece? A segunda-feira!

Mas sabe que gosto da segunda-feira? Verdade! Gosto sim. Exatamente por isso, porque ela tem o que na maioria das vezes, eu pelo menos, não tenho: paciência, determinação. Alguém me disse certa vez que a segunda-feira é lerda. Será que lerdeza significa levar as suas horas numa boa?
Na verdade a segunda-feira é genial, pois permite que eu me livre dela nesta crônica maluca, um minuto antes da terça-feira. E não dá um piu.
texto: sandra falcone

sexta-feira, outubro 23, 2009

Vitoria minha cadelinha morcego

Vitória é doce e terna , mais parece uma cadelinha-morcego, correndo pela casa com as orelhas abanando. A coisa que mais detesta é me ver teclando. Chora, rosna , fica pedindo colo, faz a maior zueira até que, cansada, deita ao meu lado, fingindo que dorme, como agora. Olhando esse bichinho tão delicado , as minhas palavras como eu, ficam sem palavras.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Madam’Aparrecê

Aparecida trabalhava em casa, arduamente, naquela máquina de costura, pedalando dia e noite. Sustentar uma casa com quatro filhos pequenos não era fácil. Mas não se queixava, gostava de costurar. Com o tempo foi se aprimorando e angariando freguesas. Depois de muito sacrifício comprou um motor — já não precisava pedalar mais.
E assim foi, anos a fio. Guardava os retalhos para as roupas das crianças, principalmente para as meninas, graciosos vestidos, bordados. Olhava as revistas estrangeiras nas bancas de jornal, que não podia comprar, e memorizava os modelos, as tendências, as cores. Os filhos cresceram junto com suas varizes. Mas não se importava.
Modesta, cobrava pouco, considerando a qualidade do seu trabalho. Nos casamentos das sobrinhas e primas, o presente — feitio do vestido de noiva, vestidos de capas de revista.
De todas as freguesas a mais assídua era dona Ester, riquíssima. Chegava de motorista com o filho. Um moleque malcriado, cinco ou seis anos, que entrava pela modesta casa, mexia em tudo, puxava o rabo da cadelinha e comprava briga com os filhos menores de Aparecida. A filha mais velha, já com quinze anos, não o suportava, mas não tinha como impedir. Dispensar a melhor freguesa da mãe?
Naquela quinta-feira fazia muito frio. Dona Ester chegou esbaforida. Sábado tenho uma festa black-tie, trouxe um vestido de Paris, mas não serve mais. Preciso de um vestido até sábado. Aparecida, como sempre, não recusou. Esmerou-se no vestido de gala, todo bordado, varando quinta e sexta e as madrugadas. No sábado, às onze da manhã, rigorosamente no horário determinado por dona Ester, o motorista levava aquele vestido deslumbrante, caprichosamente passado.
Na semana seguinte lá estava dona Ester carregando mais tecidos com o filho capeta. Sem qualquer constrangimento, enquanto combinava os próximos vestidos e o menino tentava puxar o rabo da cadelinha escondida debaixo da mesa, disse: Meu vestido foi o mais bonito da festa. Todas as minhas amigas ficaram morrendo de inveja, sabe? São muito sofisticadas, vestidos Dior, Gucci, Cacharel, Ralph Lauren. Quando me perguntaram onde eu tinha comprado, não pude dizer que foi a senhora, seria deselegante, então respondi que o vestido tinha sido feito sob medida por Madam’Aparrecê. Quando me perguntaram onde poderiam encontrar Madam’Aparrecê, eu disse que minha madame, estilista francesa radicada no Brasil, não estava disponível, dedicava-se exclusivamente a três clientes vips, eu e mais duas senhoras muito elegantes de Porto Alegre, ninguém mais!
A filha mais velha, ouvindo aquilo tudo, não titubeou, chamou os dois irmãos menores que também odiavam o molequinho e liberou: podem bater à vontade.
Dona Ester, depois de resgatar o capeta das garras dos meninos de Aparrecê, todo lenhado e rasgado, pegou de volta os seus tecidos estrangeiros: Aparecida, nunca mais vou pisar aqui. Seus filhos são verdadeiros marginais.
A filha mais velha, rapidamente, abriu a porta da rua com a cadelinha no colo que abanava o rabinho na maior felicidade!


filha mais velha de Madam’Aparrecê

domingo, setembro 13, 2009

U-la-lá, Paris!


Recém-casada, com um marido bonitão e quatrocentão, com convidados sempre à porta, resolveu aprimorar suas prendas domésticas inexistentes. A primeira providência — um curso de etiqueta: como arrumar a mesa da forma politicamente correta. Como servir à francesa, à diplomata, e no modo americano... ou seja, um quilão doméstico disfarçado, aliás, o seu preferido. O primeiro passo : torrou o cartão de crédito numa baixela de prata – estava na lista de casamento, mas ninguém deu – e num aparelho de fondue que comprou no sufoco para se livrar da vendedora no usual blablablá, de quem vende até linguiça em restaurante vegetariano.

Enfim, preparada para receber os amigos do marido. E assim foi, jantares e jantares americanos. A empregada, cozinheira acabou cansando de tanta exploração na cozinha e pediu as contas. Entrou em parafuso, a sua praia não era a cozinha.

Depois de passar por três cozinheiras incompetentes e pelo vexame de servir frio um jantar encomendado numa trattoria da moda, jurou: nunca mais vou depender de ninguém. Procurou um curso de culinária. Era julho, todo mundo de férias, inclusive os cursos. Encontrou um apenas: de fondue. Resolveu fazer. Afinal, aquele aparelho comprado no sufoco continuava na caixa. Além do mais, fondue era chique e romântico. Não contou nada para o marido, queria fazer uma surpresa.

A quituteira mais parecia uma figura de camafeu. Organizada, entregou as apostilas, com as receitas todas. Na mesa já estavam todos os fundues prontos, de queijo, gorgonzola, catupiri, de carne, camarão, de chocolate com morangos, mangas, laranjas. Panelas de barro, de ferro, de cobre brilhando! Uma maravilha só de ver. Nem prestou atenção à aula, ficou mesmo de olho nos fundues. Logo após a exposição, as cursandas foram convidadas para a degustação. Aí se jogou de cabeça! Chegou a ter um garfo em cada panela, sem contar dois ou três nas mãos, pingando.

No final da aula, estufada de tanto comer, correu para casa. Quando chegou, o marido estava na porta, esperando-a: onde você foi? estou numa preocupação só... não podia avisar? Ela, naturalmente, querendo manter a surpresa de pé, mentiu: desculpe querido, não deu, a reunião foi inesperada. O marido, indignado, não se conteve: é, reunião? você já jantou? Ela, sustentando a surpresa: um lanchinho sem graça que me tirou a fome e um café apenas. O marido, perdendo a classe quatrocentona, despachou um palavrão de trânsito e berrou: lanchinho, café? e esse chocolate? de onde veio? E saiu batendo a porta.

Aflita, foi se olhar no espelho e o que viu? Sua cara completamente achocolatada, até as orelhas. Daí entendeu o olhar esquisito das colegas quando saiu do curso. Enfim, não foi fácil consertar a burrada. Nem o recibo adiantou, precisou carregar o marido até a dama quituteira.

A propósito, pegou tamanha aversão por fundues que, no primeiro casamento que foi convidada, empurrou de presente o aparelho, que continuava intacto na caixa.

Como resultado dessa aventura, o marido ficou encantado com a dama quituteira e se matriculou num curso vip individual, de cozinha francesa e ficou viciado. Nas férias, nem se dava ao trabalho de consultá-la, Paris. Ah! as pontes de Paris, as tulipas, os monumentos, os museus, as lojas deslumbrantes, os balés, o croque-monsieur, o requinte, o sotaque, os cafés, os vinhos, o Luxembourg. Paris, Paris emocionante, histórica, vibrante, elegante! Paris para namorar! Sempre sozinha, enquanto o marido se enfiava em cursos e mais cursos, de culinária, é claro.

Sintetizando. Hoje ele é um astro de um canal a cabo, tem programa culinário que rende ibope e um restaurante badalado. Divorciaram-se depois de dez anos de casamento sem fome.

Como diz Drumonnd, de tudo sobra um pouco. É apaixonada por Paris. Quando pode, lá está. Quando desembarca, não resiste ao chamado: U-la-lá, Paris!


Sandra Falcone

segunda-feira, agosto 24, 2009

Quem não tem câo, não caça!

É o meu conselho, do fundo coração, nada de substituir pelo gato. O que não tem sentido, não tem e ponto final. Nada de ficar procurando as leis da coerência e da lógica. É chover no molhado. Só tem um jeito, a prova dos nove, ou, numa linguagem mais filosófica, a probatio per absurdum (a "prova pelo absurdo", isto é, a demonstração da verdade de uma proposição pela falsidade evidente da proposição que se lhe opõe) uma vez que esse episódio, palco de tantas falácias sem eficácias Dilma X Lina, só pode ser entendido à luz do a reductio ad absurdum (a "redução ao absurdo", um método irônico que visava ridicularizar uma doutrina adversária pela demonstração da falsidade de uma proposição levada até ao extremo das suas consequências).


Alguém está entendo onde pretendo chegar? Não? Nem eu! E porque eu, pobre e comum cidadã, deveria? Se aguento o nonsense – o absurdo em outro idioma tem mais credibilidade do que em português.

Garanto que não pirei. Comprovo!

A ex-secretária da Receita afirma e reafirma que esteve numa reunião particular com a ministra Dilma Rosseti que, entre amenidades, sem querer, querendo, pediu que acelerasse o processo do filho do presidente do Senado. Acelerar pra onde?

A ministra diz que não existiu essa reunião. Desfolhando o trevo: fui, não fui, fui, não ...

O presidente da república dá um esculacho daqueles na ex-secretaria :fofoqueira!

A ex-secretária é chamada na cincha pelo líder do governo no senado, Aloísio Mercadante, ontem demissionário do cargo, hoje, readmitindo-se por livre e espontânea vontade do cargo que não se demitiu. Ai meus neurônios! Onde estão?

A ex-secretária sem a agenda dedo duro fica e sem a prova do crime e jura de pés juntos: não sou fantasma, não! olhem os vídeos da minha visita.

O presidente da Câmara, Michel Temer, pede à presidência da republica cópia do circuito interno da Casa Civil. Que mala-pidão!

O gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República informa que as câmaras de vigilância do Planalto ficam armazenadas num período apenas de 30 dias. Caramba , meu, que segurança !

Na mesma nota é informado que não foi encontrado nos seus registros o nome da ex-secretária, porém, os veículos que são transportados autoridades após o reconhecidos, não tem as placas anotadas. Outro caramba, meu, para a segurança!

O pobre motorista que levou a ex-secretaria para conversar com a Ministra pede demissão do cargo, sem aviso prévio. Alias, diga-se de passagem, a bem da verdade, inteligentíssimo, já estava no bico do corvo como o único culpado e imputável de plantão nesse imbróglio. Eu, hein? Fui!

A ministra depois do depoimento da ex-secretária quer divulgar nota e o nosso presidente diz: não! nada de sobremesa para adoçar os boquinhas da oposição.

Já chega? Também acho!

Beckett no seu teatro do absurdo ficaria com inveja.

Muitas vezes relendo minhas palavras tarjadas pela inconformação de cidadã me sinto como Sisifo, condenada a empurrar minhas palavras, sem descanso, até o cume de uma montanha de meias verdades e mentiras inteiras, de onde cada palavra minha cai de novo, em conseqüência do peso, mercê de um castigo terrível: o trabalho inútil e sem esperança.



Sandra Falcone

quinta-feira, agosto 13, 2009

Mais do que embuchados !



Ainda não aprendi, apesar de levar tanto cascudo nos neurônios que nem sempre posso ler uma expressão ao pé da letra. No que se refere ao Senado, posso afirmar que não há dicionário da língua portuguesa que dê suporte. Nem legal. Nem lingual. Nem o escambau!
Só tem um jeito: se inventam tantos códigos inócuos, por que não inventar um dicionário só para o Senado? Ficaríamos assim mais confortáveis e não teríamos que fazer carinho nas palavras vilipendiadas escritas e faladas. Não posso deixar de pensar nos grandes mestres poetas e escritores que tanto usaram dessas mesmas palavras para transcender a alma, retratar este nosso país com louvor e esperança. Como deve ter sido difícil, quanto sofrimento! Nesta noite até sonhei com Gonçalves Dias, chorando de fazer dó!

O Senado decidiu manter as gratificações dos servidores concedidas na calada da noite. Parecem gatunos do dinheiro sofrido dos cidadãos comuns, quando publicam 80 atos secretos, validando no diário oficial a gatunice numa só canetada. O argumento de José Sarney? O vício da falta de publicação dos atos já foi sanada...
Não consigo deixar de indagar: sanou o quê? Sanar, meu caro presidente do Senado, não é isso aí que o senhor fez. Sanar, meu caro presidente do Senado, no dicionário do cidadão significa promover limpeza, reparação, cura.

Onde está a limpeza, reparação, cura? Na validação das gratificações pagas desde 1999? permitindo a manutenção dos bônus concedidos? nas outras 152 gatunices e nos 36 atos administrativos, entre eles o que reajustou a verba de representação dos senadores de R$ 12 mil para R$ 15 mil?

Diante dessa saraivada de bombas atômicas na moralidade dos atos públicos, não lhes ocorre que nós cidadãos comuns temos capacidade de entender não só o que é sanear como – e também – derivar para saneamento e tipificar esses atos como um sistema de esgotamento sanitário que permite o rápido escoamento de imundícies?
Outrossim, igualmente, também e bem assim, esses mesmos cidadãos sabem que esgoto quando saturado embatuca. E nada de confundir com batuque! O povo um dia vai fazer tudo isso calar, já está mais do que embuchado, pode acreditar! Eu acredito!

Bem, só me resta fazer um dueto com o Gonçalves Dias na sua Canção do Exílio:

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.


Sandra Falcone

terça-feira, agosto 11, 2009

disfarçem estão sendo fotografados !


Encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora
E conta logo a tua mágoa toda para mim
Quem chora no meu ombro
eu juro que não vai embora
que não vai embora
que não vai embora
postado por Sandra Falcone