A natureza é um livro aberto. Diferente do nosso Congresso, que é um livro fechado. A natureza se dá por inteiro, se mostra, nos dá exemplos incríveis a cada momento. Nós é que não temos muitas vezes capacidade de entendê-la. O nosso Congresso também nesse aspecto é diferente. Se bem que muitos se dão, num outro sentido, ou se lhe dão (nem sei se o português está correto – mas quem está ligando para regras no Congresso?). Um consciente cidadão percebe. Não compreende, é claro. Mas percebe. Mesmo com o livro fechado a sete chaves.
Mas voltando à natureza. Na pressa, no cotidiano asfixiante de todos os dias, acabamos passando batidos, principalmente nos países do terceiro mundo. Falando em terceiro mundo, quem criou os outros? e quem disse que são três? Na minha modesta opinião, captando o que o mundo nos apresenta em technicolor todos os dias, temos, por baixo, uns dez países abaixo do terceiro mundo. Outra coisa que me encafifa muito é a expressão país emergente, quando se referem ao Brasil. Somos emergentes do quê? Talvez a expressão correta fosse submersos. Enfim, essa coisa de perguntas com respostas que já sabemos – de cor e salteado – é coisa de cronista.
Vamos ao que interessa.
Resolvi procurar uma expressão que pudesse traduzir o trabalho que vejo em “câmara-lenta” sendo desenvolvido pelo Congresso, anos e anos a fio. É lógico que toda regra tem exceção, estão espertinhos, orelhas em pé na redistribuição de renda para os partidos e no aumento dos seus próprios salários. Fiquem alertas. De olho! Não custa nada mandar um bilhetinho cronístico aos novos que tomaram posse, contribuir com alguma coisa, ainda que com umas poucas palavras. Quem avisa amigo é, não é? Não precisei pensar muito. A palavra preguiça veio bater na porta. Lá fui eu, como sempre, pegar no pé do Aurélio:
1) aversão ao trabalho – existe vacina para esse vírus? se existir, acho melhor vacinar os dez deputados que até hoje, dia 12 de fevereiro de 2007, não compareceram ao trabalho; ou seria uma misantrofobia?
2) negligência, indolência, mandriice – se valer a experiência anterior, estamos fritos!
3) morosidade, lentidão, pachorra, moleza – pode ser dengue. Pena que não prestam atenção nas campanhas educacionais: se cada um cuidasse da própria casa, já teríamos erradicado esse “mosquito” . Informação temos de sobra, o que falta é conscientização.
4) pau a que estão pregadas as cangalhas da canoura – Caramba! preciso ver o que é isso, pra mim tão ininteligível como determinadas atitudes dos nossos parlamentares..
5) designação comum aos mamíferos desdentados da família dos bradipodídeos, arborícolas, de pelagem muita densa e longa, membros muitos desenvolvidos, e cauda rudimentar. Entre os seus pêlos vivem carrapatos, ou traças – que injustiça com os bichinhos. Não são preguiçosos, têm sono apenas. Costumam dormir cerca de catorze horas por dia. E quem quer ficar acordado com tanta barbaridade?
Bem... fiquei com preguiça de escrever mais sobre o mesmo assunto. Dá nos meus nervos de cidadã. E não sou o bicho-preguiça, não consigo “dormir no ponto” tantas horas. E de alguma forma a coisa está muito bem explicada pelo Chico Buarque e Ruy Guerra, considerando que o Brasil fica abaixo da linha do Equador, concordam?
“Não existe pecado do lado de baixo do Equador
Vamos fazer um pecado, rasgado, suado a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor”
Sandra Falcone
segunda-feira, outubro 29, 2007
segunda-feira, setembro 10, 2007
Mais que a nega do leite
Um exercício bom para os neurônios (sob todos os aspectos: financeiros, psíquicos, fisiológicos, administrativos, emocionais, neurológicos, econômicos e até mesmo “cidadanais” de todo ser humano, ainda que não se sinta como tal, notadamente os brasileiros), é rever alguns pensamentos verbalizados de grandes pensadores – embora muitas vezes esses pensamentos não confortem, ao contrário, deixem você numa sinuca de bico.
Já aprendi que sinuca de bico provocada por esse exercício acaba por melhorar a minha capacidade de querer entender o mundo que me cerca. E, principalmente, quem habita esse mundo – mesmo com todo o desconforto que possa trazer, por expressar uma verdade que, na minha pequenez, procuro afastar, principalmente por profunda ignorância. Quando me encontro nessa situação, naturalmente, me perdôo. E ponho a culpa na minha insignificância e no meu desconhecimento, resumindo, na minha natureza humana.
Penso, mas não penso exatamente como ou do jeito que um pensamento deveria ser pensado. Afinal, não sou uma grande pensadora, sou apenas uma pensadora comum e descamisada. E, metaforando, uma pensadora do terceiro mundo. No entanto, mesmo no terceiro mundo pensamental, posso me aproximar, ainda que engatinhando dos grandes pensamentos, começando pela premissa maior: penso... logo... existo! Se bem que não raras vezes não é bem assim, e logo... desisto, buscando guarida em Alberto Caeiro: a única inocência é não pensar. É o meu caso, quando assisto à novela protagonizada por Renan Calheiros .
Outro dia me peguei pensando numa coisa totalmente maluca! Desejei ser absolutamente primitiva. Entender o mundo apenas em função do meu restrito cenário e estabelecer a relação entre o mal e o bem em decorrência exclusivamente desse cenário, ou seja, da natureza! Eu estava ali, simplesmente, como todos os outros seres inanimados ou não, aceitava o meu destino, tal como viesse, sem qualquer questionamento. O tempo, embora sentido pelas luas e sóis inexoráveis, não era medido portanto, e o sentido de finitude também passava ao largo. Já pensou que maravilha não estar pressionada cotidianamente pelo sentido de finitude?Início, meio e fim? Muito menos impunidade? Viver simplesmente? Instintivamente? Não existe o outro? Que outro?
Naturalmente, como não sou primitiva, não no sentido que os não-primitivos (como eu) conceituam, esses pensamentos foram devorados pela experiência atávica vinda de questionamentos filosóficos seculares e que induzem à consciência do sujeito, ainda que não consiga verbalizar. Ou seja, fiquei com a brocha na mão: compelida a pensar ainda que por osmose, com pensamentos que não os meus.
Garanto que busquei nos grandes pensadores alguma lógica para absorver (entender, jamais!) o que acontece no nosso Senado! Quem sabe eu poderia colocar a culpa num pensador qualquer? Aristóteles? Descartes? Ou quem sabe a coisa estava mesmo com Kant na Crítica da Razão Pura? Ou será que a buraco é mais embaixo? Talvez José Dirceu? Valério? “Jenuínos “ pensadores de como bem aplicar o nosso dinheiro?
Com toda essa trabalheira pensamental, acabei ficando exausta e embrulhada por pensamentos fugidios, ou seja, fazendo meus pensamentos falar mais que a nega do leite (expressão baiana que significa falar demais). Nesse sufoco me lembrei de Hera (que castigou Echo, roubando-lhe a inteligência e a eloqüência, condenando-a a repetir aquilo que ouvia, sem jamais ter palavras próprias) e, mais uma vez, fui tomada por um pensamento: transformar os nossos Senadores e Senadoras na próxima quarta feira em Echos, sem palavras próprias nos dedos ( no momento de votar) repetindo no voto o que viessem a ouvir da opinião pública. Dessa forma, seguindo o mesmo roteiro,o nosso presidente do Senado assumiria o papel de Narciso e, injuriado pela monotonia da opinião pública, bateria a mão naquele riozinho artificial do Planalto e, finalmente, veria o reflexo de si mesmo.
É... talvez valha a pena investir nessa idéia!
texto e trabalho gráfico: Sandra Falcone
Já aprendi que sinuca de bico provocada por esse exercício acaba por melhorar a minha capacidade de querer entender o mundo que me cerca. E, principalmente, quem habita esse mundo – mesmo com todo o desconforto que possa trazer, por expressar uma verdade que, na minha pequenez, procuro afastar, principalmente por profunda ignorância. Quando me encontro nessa situação, naturalmente, me perdôo. E ponho a culpa na minha insignificância e no meu desconhecimento, resumindo, na minha natureza humana.
Penso, mas não penso exatamente como ou do jeito que um pensamento deveria ser pensado. Afinal, não sou uma grande pensadora, sou apenas uma pensadora comum e descamisada. E, metaforando, uma pensadora do terceiro mundo. No entanto, mesmo no terceiro mundo pensamental, posso me aproximar, ainda que engatinhando dos grandes pensamentos, começando pela premissa maior: penso... logo... existo! Se bem que não raras vezes não é bem assim, e logo... desisto, buscando guarida em Alberto Caeiro: a única inocência é não pensar. É o meu caso, quando assisto à novela protagonizada por Renan Calheiros .
Outro dia me peguei pensando numa coisa totalmente maluca! Desejei ser absolutamente primitiva. Entender o mundo apenas em função do meu restrito cenário e estabelecer a relação entre o mal e o bem em decorrência exclusivamente desse cenário, ou seja, da natureza! Eu estava ali, simplesmente, como todos os outros seres inanimados ou não, aceitava o meu destino, tal como viesse, sem qualquer questionamento. O tempo, embora sentido pelas luas e sóis inexoráveis, não era medido portanto, e o sentido de finitude também passava ao largo. Já pensou que maravilha não estar pressionada cotidianamente pelo sentido de finitude?Início, meio e fim? Muito menos impunidade? Viver simplesmente? Instintivamente? Não existe o outro? Que outro?
Naturalmente, como não sou primitiva, não no sentido que os não-primitivos (como eu) conceituam, esses pensamentos foram devorados pela experiência atávica vinda de questionamentos filosóficos seculares e que induzem à consciência do sujeito, ainda que não consiga verbalizar. Ou seja, fiquei com a brocha na mão: compelida a pensar ainda que por osmose, com pensamentos que não os meus.
Garanto que busquei nos grandes pensadores alguma lógica para absorver (entender, jamais!) o que acontece no nosso Senado! Quem sabe eu poderia colocar a culpa num pensador qualquer? Aristóteles? Descartes? Ou quem sabe a coisa estava mesmo com Kant na Crítica da Razão Pura? Ou será que a buraco é mais embaixo? Talvez José Dirceu? Valério? “Jenuínos “ pensadores de como bem aplicar o nosso dinheiro?
Com toda essa trabalheira pensamental, acabei ficando exausta e embrulhada por pensamentos fugidios, ou seja, fazendo meus pensamentos falar mais que a nega do leite (expressão baiana que significa falar demais). Nesse sufoco me lembrei de Hera (que castigou Echo, roubando-lhe a inteligência e a eloqüência, condenando-a a repetir aquilo que ouvia, sem jamais ter palavras próprias) e, mais uma vez, fui tomada por um pensamento: transformar os nossos Senadores e Senadoras na próxima quarta feira em Echos, sem palavras próprias nos dedos ( no momento de votar) repetindo no voto o que viessem a ouvir da opinião pública. Dessa forma, seguindo o mesmo roteiro,o nosso presidente do Senado assumiria o papel de Narciso e, injuriado pela monotonia da opinião pública, bateria a mão naquele riozinho artificial do Planalto e, finalmente, veria o reflexo de si mesmo.
É... talvez valha a pena investir nessa idéia!
texto e trabalho gráfico: Sandra Falcone
terça-feira, setembro 04, 2007
Pode entrar
terça-feira, agosto 28, 2007
Favoritos

Ciscar na internet tem se tornado, pelo menos para mim, um hábito muito gostoso. É impressionante o que se lê. Como coloco tudo que acho interessante nos “favoritos”, o pobre está lotado, se bem que nem tudo é de qualidade, ou melhor, é...mas não politicamente correto... e nem sempre o que é politicamente correto é correto, não é?
Nesta última segunda-feira,como sempre, fui ciscar e...achei de tudo! Em minutos de leitura desisti de querer entender os crimes hediondos desta ultima semana, nem as falcatruas comuns dos nossos representantes, nem o pouco caso a que são submetidos os nossos cidadãos. Resolvi ficar no besteirol - afinal era segunda-feira! Se não me permitir, à segunda-feira, o direito de um sorriso, logo as dez horas da manhã, o que será das demais “feiras” da semana? pensei. Continuei a sorrir até que, de repente, a voz da consciência ( é sempre cruel) se meteu no meio dos meus sorrisos: nada de sorrir, caramba! Você tem é que chorar! Como tem a coragem de sorrir diante de tudo que lê, diariamente?
Tentei, juro! Mas a piada era ótima e do sorriso acabei gargalhando. Daí , como rir é muito bom, pega, como diria minha tia-madrinha, de um sorriso parti pra outro, e outro e outro !
Foi tão boa a experiência que no final do expediente, com a boca cansada de sorrir, sorri descaradamente quando enfrentei o metrô lotado e um sujeito me atropelou para tomar o meu lugar no assento e não pediu desculpas; sorri docemente quando enfiei meu pé num buraco da calçada e quebrei salto do sapato… e dormi sorrindo com doçura - enquanto uma dor de dentes de matar qualquer cristão martelava minha alma.
Por tudo isso, estou determinada: vou sorrir muito nas segundas-feiras, por tudo e por nada, por todos os dias da semana, mas com o cuidado de me desviar dos sorrisos delicados, ternos. Esses sorrisos de alma logo numa segunda-feira são perigosos, já tenho experiência nisso. Sorrisos provocados pela poesia principalmente acabam nos aproximando da essência... e ficar próxima da essência é fogo! Como vou encarar, depois de ler um poema de Manuel de Barros , por exemplo, a imensa lista de nomes e crimes do mensalão, já sabendo que esses crimes , considerando a presteza da nossa justiça, se julgados, vão demandar anos e anos a fio, de apelações, recursos, etc. etc? Provavelmente inocentados por WO de vida (considerando a idade da maioria dos indiciados, há tanto tempo na “labuta”) e embora todo o esforço do Supremo Tribunal em incrimina-los?
Não, numa segunda-feira o melhor que tenho a fazer é correr atrás do besteirol. Ele me ajudará a pensar que tudo é uma questão de ótica. Monto na alienação, fico confortada e não vou sentir nenhum remorso por sorrir, ainda que o sorriso seja triste e forçado! Assim, no sábado, mesmo que abraçada pelos meus sorrisos cansados e provavelmente bicuda com tudo que precisei engolir durante a semana, como cidadã, vou me ficar bem pertinho do Drumonnd nos meus favoritos e sorrir de novo, mas desta vez com o sorriso que eu gosto de sorrir e, se mesmo assim, ainda de tudo sobrar mais um pouco, tenho o Vinícius de Moraes para salvar o meu domingo!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
(versos extraídos do poema Pátria Minha de Vinicius de Moraes)
crônica: Sandra Falcone
Nesta última segunda-feira,como sempre, fui ciscar e...achei de tudo! Em minutos de leitura desisti de querer entender os crimes hediondos desta ultima semana, nem as falcatruas comuns dos nossos representantes, nem o pouco caso a que são submetidos os nossos cidadãos. Resolvi ficar no besteirol - afinal era segunda-feira! Se não me permitir, à segunda-feira, o direito de um sorriso, logo as dez horas da manhã, o que será das demais “feiras” da semana? pensei. Continuei a sorrir até que, de repente, a voz da consciência ( é sempre cruel) se meteu no meio dos meus sorrisos: nada de sorrir, caramba! Você tem é que chorar! Como tem a coragem de sorrir diante de tudo que lê, diariamente?
Tentei, juro! Mas a piada era ótima e do sorriso acabei gargalhando. Daí , como rir é muito bom, pega, como diria minha tia-madrinha, de um sorriso parti pra outro, e outro e outro !
Foi tão boa a experiência que no final do expediente, com a boca cansada de sorrir, sorri descaradamente quando enfrentei o metrô lotado e um sujeito me atropelou para tomar o meu lugar no assento e não pediu desculpas; sorri docemente quando enfiei meu pé num buraco da calçada e quebrei salto do sapato… e dormi sorrindo com doçura - enquanto uma dor de dentes de matar qualquer cristão martelava minha alma.
Por tudo isso, estou determinada: vou sorrir muito nas segundas-feiras, por tudo e por nada, por todos os dias da semana, mas com o cuidado de me desviar dos sorrisos delicados, ternos. Esses sorrisos de alma logo numa segunda-feira são perigosos, já tenho experiência nisso. Sorrisos provocados pela poesia principalmente acabam nos aproximando da essência... e ficar próxima da essência é fogo! Como vou encarar, depois de ler um poema de Manuel de Barros , por exemplo, a imensa lista de nomes e crimes do mensalão, já sabendo que esses crimes , considerando a presteza da nossa justiça, se julgados, vão demandar anos e anos a fio, de apelações, recursos, etc. etc? Provavelmente inocentados por WO de vida (considerando a idade da maioria dos indiciados, há tanto tempo na “labuta”) e embora todo o esforço do Supremo Tribunal em incrimina-los?
Não, numa segunda-feira o melhor que tenho a fazer é correr atrás do besteirol. Ele me ajudará a pensar que tudo é uma questão de ótica. Monto na alienação, fico confortada e não vou sentir nenhum remorso por sorrir, ainda que o sorriso seja triste e forçado! Assim, no sábado, mesmo que abraçada pelos meus sorrisos cansados e provavelmente bicuda com tudo que precisei engolir durante a semana, como cidadã, vou me ficar bem pertinho do Drumonnd nos meus favoritos e sorrir de novo, mas desta vez com o sorriso que eu gosto de sorrir e, se mesmo assim, ainda de tudo sobrar mais um pouco, tenho o Vinícius de Moraes para salvar o meu domingo!
Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.
(versos extraídos do poema Pátria Minha de Vinicius de Moraes)
crônica: Sandra Falcone
segunda-feira, agosto 27, 2007
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