sábado, janeiro 13, 2007

ode a palavra I

responda!
com que palavras extirparei de mim
de ti e... de nós
esta passividade
maldita
covarde
diante de tanta violência?
como desfaço o caos
sem fragmentar?
onde encontro
essas palavras que desconheço?
que alquimia é essa?
... regresso ao ventre?

e se encontrar as palavras certas?
vou desfazer o que já foi feito?

num faz-de-conta?
ou na língua do pê?


Sandra Falcone 2006

tresandar


Por quê
desvairada alma
subir a montanha
dizendo-te alpinista
se és ermitão?

Desraigá-lo de ti?

Não mintas
nem disfarces
Não adianta
trepidas tanto !

Ouço daqui!

Tresloucada
Não percebes?
Tresandas!

Sandra Falcone
Retraços de Mulher/1998

quarta-feira, janeiro 10, 2007



Como quem planta a vida
ao pé de uma árvore,
as roupas brancas dadas ao sol
albergam de fé
o futuro que há.
.
Érica Antunes
Créditos da foto: Érica Antunes, "Varal", 2004.




RATOS

para T.S.Eliot


Já que um poeta de altíssimo coturno,
aliás velho gambazão, grave e soturno,
verteu tinta e talento, em versos caricatos,
para cantar a glória felina dos gatos,

eu, poeta de meia tijeliot, prometo,
na língua dos portugas e dos paragatos,
renunciar a tais glórias – e aqui vos submeto
estes meus versos camundongos sobre ratos.

O’ musas dos murídeos, que habitam os bueiros
e atormentam as noites brancas dos queijeiros!
Eu vos invoco e a vós suplico agora a que me
soprem engenho e arte em vosso escuro acme!

Ninfas de todos os mamíferos roedores,
que bebem nos esgotos negras ratafias,
soai o rataplã de vossos mil tambores,
que eu vou ratazanar em muitas freguesias.

Valei-me deusa Karniji dos trovadores
e dos ratos, valei-me nestes versos maus,
nestes versos meus, feitos a teclado & mouse,
o santo-daime vosso dai-me dos louvores.

Que eu, insolente, agora me ponho a cantar,
não como o príncipe dos negros e mulatos,
cuja pesada cruz não se ousa carregar,
mais ao modo, talvez, de Gregório de Matos:


Assef Kifouri

Guepardo


O guepardo e o gnu




O guepardo espreita, ao longe, a sua presa.
Não há qualquer misericórdia em seu olhar.
Só brilho – fino e frio – do aço de cortar.
O predador é um vulto (oculto) na surpresa.

A mãe lambe o pequeno gnu recém-nascido:
Viver de agora em diante é uma questão de sorte.
No entanto o vento sopra a favor da morte.
Inerme, fraco e lento – ele é o escolhido.

Eis que o caçador se descongela, avança,
O corpo esguio, coleando, como quem dança,
Passo após passo sobre patas de algodão.

Contra a manada ele arremete! A cem por hora!
Abocanha o filhote e o derruba no chão!
E, ali, ele o desventra – vivo – e o devora!


Assef Kifouri

Meu Bilac


A poesia para se manifestar muitas vezes dispensa palavras escritas.

segunda-feira, janeiro 08, 2007

fragmentos v


entendo o seu cansaço e sei da sua sede
da sua fome
vem
empresto o meu cajado
divido com você
o meu vinhoo
o meu pão
descansea sua alma na minha
e liberte as suas lágrimas

antes de partir me abrace

segue o seu caminho

eu sempre estarei com você
ainda que na poeira
dos seus passos
trôpegos ou não

nessa estrada que é...
só sua