sábado, abril 26, 2008

Melancolia


sim, ainda ressoa pelas paredes
Mozart
só que não estamos de mãos dadas
as minhas
tremulas
tecem uma manta de tricô


faz frio aqui
muito frio
e as noites agora são longas e pesadas


meus sorrisos?
foram roubados
pelo pássaro da solidão
quanto tu fostes embora


ao fim de cada dia
apenas a saudade
regressa

não posso dormir
amor
preciso tecer a manta
faz frio aqui
muito frio

tens razão
é tarde
... muito tarde !



Poema e imagem: Sandra Falcone

segunda-feira, abril 14, 2008

desejo


o silencio dos teus dedos
no meu corpo vazio
tem um preço
que me é cobrado
dia a dia
na agonia
das minhas noites opacas


às vezes recuso
o pagamento

e grito palavras
boas
más
fico violenta
doce
terna

e me faço tua
com
as minhas mãos


e quando faço isso
esse silêncio maldito
e tirano
me abraça com tanta força
que eu me calo
sufocada

e sem outra alternativa
pago não só a conta
que estou devendo
mas adianto outras

na esperança
de que credora
eu tenha de volta
o que o silêncio dos
teus dedos
...tirou de mim



poema e imagem: Sandra Faalcone

sábado, fevereiro 23, 2008

horas sem tempo I


poema e imagem : Sandra Falcone

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Des-tempo


Des-tempo!



A percepção do tempo é sentida pelo ser humano, geralmente no estrago que faz no corpo, por fora e por dentro. Assim também, na maioria das vezes, eu meço o tempo egoisticamente, olhando para mim e para os outros.

A partir de uma determinada idade, passei a medir o tempo pelo des-tempo. Ou seja, o "menos tempo" que tenho. Noto também, conversando por aí, que por mais consciência que se tenha do des-tempo, ou melhor dizendo, da finitude, talvez por misericórdia divina essa finitude desaparece quando esperamos o amanhecer ou o anoitecer de um novo dia, embora doentes, tristes, amargurados, desesperados... sem qualquer razão para continuar a viver.

Sei que este tema é debatido há milênios pelo homem - a busca da continuidade de si mesmo, nos filhos, numa obra, num legado e até mesmo na eternidade, uma eternidade que ele desconhece, tanto no sentido micro como macro.

A religião, em qualquer dos dogmas, ajuda, nos envolve de esperança mas, no aqui-e-agora, não resolve. Pelo menos não no sentido que entendemos viver nesta dimensão.

Quando acaba o gás aqui é finito, ponto final, the end. Por isso, nesse debate íntimo de todos os dias, consciente ou inconsciente, não consigo entender, a partir de um determinado tempo, a razão do apego que se tem a determinados bens materiais e, principalmente, à posição social, poder, etc.

Entendo na juventude, mas não entendo na maturidade, quando já temos um passado, bom ou mau, não importa; quando já trilhamos caminhos por vias expressas e vicinais; quando já derramamos lágrimas nossas e dos outros.

Cada dia temos mais pressa, não temos? Tudo é mais rápido! Atravessamos até a barreira do som. Criamos a internet e, em segundos, estamos com o mundo ao alcance dos nossos dedos, imenso e restrito numa tela plana. Queremos mais tempo e, num paradoxo infernal, encurtamos o tempo - ele passa mais depressa.

Eu lembro como, na minha infância, custava chegar o dia do meu aniversário. Nossa! Um tempão. Hoje, quando termino um, o outro está na porta. Quando percebo, lá se foi mais um, outro, mais outro. Não nego que faço de conta que alguns não aconteceram, porém... é só um faz-de-conta.

O tempo passa metódica e inexoravelmente. Independente. Absoluto. Soberano.

Também é obvia a minha indagação de alma: por que então continuar, se sei que vai acabar? E continuo, apesar de tudo, esperando um amanhã radiante e penso que no ultimo instante, que sei que acontecerá, assim será!

Agora há pouco, pensando em coisas que o tempo não muda e que continuam do mesmo jeito que foram inventadas, com toda a tecnologia que o homem criou para facilitar e des-facilitar sua vida, lembrei do limpador de pára-brisa. Continua igualzinho, com aquela simplicidade incrível. Os modelos dos veículos, aviões, por exemplo, cada vez mais sofisticados, mudaram, mas não conseguiram inventar um outro instrumento que não seja aquelas hastes, maiores ou menores, para que possam enxergar através da chuva ou da neblina, não é?

Parece uma ilação besta sem sentido... mas refletindo bem, não é! Talvez nos falte um pára-brisa simples, para que possamos enxergar através do tempo, enquanto há tempo.

A propósito: hoje é o dia do meu aniversário!

TEXTO: Sandra Falcone
FOTOS: Sandras , tia e sobrinha, no tempo já passado!


terça-feira, dezembro 18, 2007

Tartufo



Olhando a foto do Renan Malheiros nos periódicos,depois do seu des-julgamento, querendo entender os meandros desse personagem que tanto Ibope dá , pensei em uma definição linear (mesmo porque ele não agüenta nada mais além disso ) .

Não precisei cutucar muito os meus neurônios, não! Foi rápido.

Ocorreu-me que, como coadjuvante desse espetáculo de todos os dias, poderíamos cataloga-lo como uma personagem plana que, segundo E.M.Foster, é constituída em torno de uma única idéia, implicando na sua falta de profundidade , que não evolui ao longo da ação.
Resumindo: uma personagem estática.

Diferente da personagem redonda que é complexa e ampla.

No caso específico do Renam a sua imobilidade só é alterada quando alguem pretende puxar aquela cadeira que ama de paixão : a do Senado!

Pensando nisso tudo, foi natural a minha conexão com os grandes mestres da literatura. Lembrei de Tartufo de Moliére (escrito em 1870) . Alias, no que me toca como cidadã, nunca levei a sério esses Tartufos (brasileiros), tão frustrantes como o homônimo - que tanto mal faz à minha diabetes.

Morrendo de vontade de comer um chocolate, ainda que não exatamente um tartufo, como estamos perto do Natal e o Papai Noel anda por aqui fazendo uma força danada pra atender todos os pedidos, arrisquei: quem não arrisca, não petisca.Pedi, ou melhor, implorei ao Papai Noel que transformasse todos os eventos que assistimos, metódica e cotidianamente, numa grande comédia, com a mesma receita de Moliére. Nada é impossível! A fé remove montanhas !

Assim, num futuro bem adiante, os nossos descendentes pudessem entender a nossa passividade de hoje e com grande tolerância diriam: eram meros espectadores, coitados!

Só espero que nenhum abelhudo mais atento (sabe aquele espírito-de-porco que sempre aparece nas horas mais inconvenientes?) dê com as línguas nos dentes e: não gostavam do texto, tinham horror aos personagens, não aplaudiam e, ainda assim, assistiam impávidos aos espetáculos?

Esse é o grande risco que corremos no futuro. Alguém procurar nos definir como estou fazendo agora. Já pensou?

Vamos torcer para que isto não aconteça! Que esse abelhudo não nos inclua como personagens nesse pastelão de última categoria de todos os dias , comparando-nos à Braggadochio ( de Edmundo Spencer)- que ao criou uma personagem oposta aos ideais e valentia e que tem como grande característica a covardia!
Sandra Falcone

quinta-feira, dezembro 13, 2007

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Vitória


minha cadelinha morcego
Sandra Falcone