Chove!
Hoje, como todas as tardes nesse verão de São Paulo chove e centenas de guardas-chuvas vem e vão, colorindo a Avenida Paulista. Vermelhos, amarelos, estampados, pretos. Gente apressada, nos pontos de ônibus, preocupadas com o que vão encontrar em casa, móveis boiando, aquele quartinho tão sonhado alagado. Outros simplesmente preocupados com o sapato novo de “grife”, tanta incoerência nas ruas desta cidade que tanto amo e nem por isso deixo de senti-la, à cada instante, com os seus contrates.
Guarda-chuva, quando eu tinha por volta de nove anos, era coisa de gente rica e eu era pobre.
A família tinha apenas um guarda-chuva: horrível, preto, enorme, masculino. Ganhamos do meu avô (tinha um igualzinho). Entregou-nos com pompa e recomendações: artigo de luxo, o melhor que existe por ai! O guarda-chuva foi pra cima do guarda-roupa e só era usado em casos de extrema necessidade, ou seja, quando o céu mandava brasa. Dilúvio! Nossa!Quanta responsabilidade quando chovia e eu levava para a escola Grudava nele feito chiclete. E que alívio quando voltava pra casa e toda orgulhosa mostrava pra minha mãe: intacto!Minha mãe sempre dizia: você é uma mocinha muita linda e cuidadosa.O pobre guarda-chuva foi envelhecendo, perdendo o brilho, capenga, uma ou duas varetas quebradas.
Minha mãe colocava um alfinete e pronto, o bichinho cumpria metodicamente sua missão.
No início das aulas cada professora dava uma listinha com o material do ano letivo e todos compravam no mesmo lugar - uma pequena livraria ao lado do Grupo Escolar.Bastava dar a classe e a professora, e já estava tudo separado num pacote.
Era uma delicia aquele pacote! Ficava ansiosa para voltar pra casa e olhar o que tinha dentro: encapar os cadernos... fazer uma forzinha logo na primeira folha do livro e do caderno e escrever meu nome....dava uma sensação de posse do saber. E eu me sentia muito importante!Chovia naquele dia, muito.
Minha mãe deu o dinheiro para eu comprar o meu material e o da minha irmã. Antes de começar a aula fui comprar. Só tinha o meu pacote. Voltei no fim da aula, o pacote da minha irmã continuava ausente e a chuva tinha ido embora.
Sempre gostei do cheiro de chuva quando ela vai embora.O ar fica alegre, e eu acabo ficando também. Até hoje!Bem, com o dinheiro desocupado na minha mão, e um puxa-puxa fazendo oi, uma groselha sorrindo e a longa volta para casa tendo por companhia um algodão-doce, branquinho, branquinho... eu e a mana não resistimos.O dia era lindo, claro, azul. Logo eu estaria abrindo o meu pacote, colocando meu nome, fazendo a florzinha. A boca lotada de doce. O algodão-doce esperando! O que mais eu poderia desejar? Era completamente feliz. Tão feliz que comecei a pular.
Pulei tanto que me desequilibrei e para não cair me apoiei no guarda-chuva e, sem querer, enfiei o pobrezinho num buraco...quando puxei de volta, fiquei com o cabo e algumas varetas, todas estrumbilhadas. Meu Deus do céu! Acho que foi a primeira vez na vida que fiquei com a brocha na mão. Fico ainda, mas já tenho uma certa experiência.A minha única preocupação era o guarda-chuva, mais nada. Como contar para minha mãe! E o meu avô? Bem, o mal estava feito, enfrentei. Imagino a minha cara de ré quando cheguei em casa, porque não precisei dizer nada.
Minha mãe foi logo perguntando: o que aconteceu?Eu, mais do que depressa, mostrando as varetas : foi sem querer, enfiei num buraco pra não cair e ficou assim...Que sorriso lindo deu quando percebeu que não havia acontecido nada comigo.Aquele sorriso compensou uns cascudos que eu e a mana tomamos quando ela descobriu que o dinheiro do material havia virado picolé....
....
O tempo passou e a China chegou, com todo o trabalho escravo que nos permite comprar guarda-chuvas a R$5, 00, em qualquer esquina.Mesmo sabendo disso, compramos, porque chove.
Falando em chuva tem uma aqui na minha janela. Escorrendo gotinhas delicadas e ritmadas. Cantando ou chorando?
Sandra Falcone
segunda-feira, dezembro 03, 2007
sexta-feira, novembro 30, 2007
Regresso
regressas
em metades
divididas em mil
outras metades
que não consegues juntar
e sob as sombras
de todas essas metades
nesse teu des-conjuntamento
eu teu recebo
com meus olhos de vidro
num tempo sem tempo
que não tem mais
onde ficar
...
acreditas?
sinceramente?
que o teu regresso
no dorso de palavras
doces tuas
que já foram minhas
trarão de volta
o cheiro de lavanda
dos nossos lençóis?
não
meu querido
regresses sim
mas de volta
a esses outros lençóis
que escolhestes à minha revelia
posso apenas devolver
o vidro de lavanda
é teu
sempre foi
no entanto
apenas o vidro
o perfume
evaporou !
Sandra Falcone
quinta-feira, novembro 22, 2007
Luzes
Parece que o verão chega agora aqui em São Paulo, nesta primavera, abafada, cidade fervilhando de pessoas que tem e não tem aonde ir e o quê fazer.Tanta gente misturada no resto da noite de carros importados e blindados ás mãos estendidas.
A cidade começa a ficar iluminada, uma festa de luzes esperando o Natal.
Tão bonita de ver! Mesmo para aqueles que se confundem no lixo.Mesmo assim, mesmo para quem apenas olha, ou melhor, só pode olhar.
Talvez eu nada mais esteja fazendo do que aplacar a minha responsabilidade intrínseca de ser, dar um jeito na minha consciência de cidadã, quem sabe até me fazer de morta perante tanta pobreza, tanto desequilíbrio, sei lá… mas gosto tanto das luzes esperando o Natal: amarelas, brancas, vermelhas, azuis...
Luzes dão a sensação de conforto. São como gotinhas de alegria coloridas, piscando para a cumplicidade do sonho. Não consigo olhar as pequenas luzes piscando, piscando e ficar triste, não consigo! Juntas parecem indicar que a esperança é logo ali.
Se um mendigo, um só, um menino ou uma menininha, olhar e sonhar com as luzes já valeu a pena.
Um único sonho perambulando pelas ruas já vale a pena.
Um sonho de alguma coisa que nem precisa ser consciente.
Um sonho, que não seja pelo prato de comida...
Um único sonho, mesmo que dure o exato tempo do piscar de uma das milhares lâmpadas.
Enquanto penso nisso tudo me pergunto: que céu é esse que ainda teimo azul?
Sandra Falcone
segunda-feira, novembro 05, 2007
horas sem tempo (IV)
quinta-feira, novembro 01, 2007
horas sem tempo (II)
horas sem tempo (I)
segunda-feira, outubro 29, 2007
Não existe pecado?
A natureza é um livro aberto. Diferente do nosso Congresso, que é um livro fechado. A natureza se dá por inteiro, se mostra, nos dá exemplos incríveis a cada momento. Nós é que não temos muitas vezes capacidade de entendê-la. O nosso Congresso também nesse aspecto é diferente. Se bem que muitos se dão, num outro sentido, ou se lhe dão (nem sei se o português está correto – mas quem está ligando para regras no Congresso?). Um consciente cidadão percebe. Não compreende, é claro. Mas percebe. Mesmo com o livro fechado a sete chaves.
Mas voltando à natureza. Na pressa, no cotidiano asfixiante de todos os dias, acabamos passando batidos, principalmente nos países do terceiro mundo. Falando em terceiro mundo, quem criou os outros? e quem disse que são três? Na minha modesta opinião, captando o que o mundo nos apresenta em technicolor todos os dias, temos, por baixo, uns dez países abaixo do terceiro mundo. Outra coisa que me encafifa muito é a expressão país emergente, quando se referem ao Brasil. Somos emergentes do quê? Talvez a expressão correta fosse submersos. Enfim, essa coisa de perguntas com respostas que já sabemos – de cor e salteado – é coisa de cronista.
Vamos ao que interessa.
Resolvi procurar uma expressão que pudesse traduzir o trabalho que vejo em “câmara-lenta” sendo desenvolvido pelo Congresso, anos e anos a fio. É lógico que toda regra tem exceção, estão espertinhos, orelhas em pé na redistribuição de renda para os partidos e no aumento dos seus próprios salários. Fiquem alertas. De olho! Não custa nada mandar um bilhetinho cronístico aos novos que tomaram posse, contribuir com alguma coisa, ainda que com umas poucas palavras. Quem avisa amigo é, não é? Não precisei pensar muito. A palavra preguiça veio bater na porta. Lá fui eu, como sempre, pegar no pé do Aurélio:
1) aversão ao trabalho – existe vacina para esse vírus? se existir, acho melhor vacinar os dez deputados que até hoje, dia 12 de fevereiro de 2007, não compareceram ao trabalho; ou seria uma misantrofobia?
2) negligência, indolência, mandriice – se valer a experiência anterior, estamos fritos!
3) morosidade, lentidão, pachorra, moleza – pode ser dengue. Pena que não prestam atenção nas campanhas educacionais: se cada um cuidasse da própria casa, já teríamos erradicado esse “mosquito” . Informação temos de sobra, o que falta é conscientização.
4) pau a que estão pregadas as cangalhas da canoura – Caramba! preciso ver o que é isso, pra mim tão ininteligível como determinadas atitudes dos nossos parlamentares..
5) designação comum aos mamíferos desdentados da família dos bradipodídeos, arborícolas, de pelagem muita densa e longa, membros muitos desenvolvidos, e cauda rudimentar. Entre os seus pêlos vivem carrapatos, ou traças – que injustiça com os bichinhos. Não são preguiçosos, têm sono apenas. Costumam dormir cerca de catorze horas por dia. E quem quer ficar acordado com tanta barbaridade?
Bem... fiquei com preguiça de escrever mais sobre o mesmo assunto. Dá nos meus nervos de cidadã. E não sou o bicho-preguiça, não consigo “dormir no ponto” tantas horas. E de alguma forma a coisa está muito bem explicada pelo Chico Buarque e Ruy Guerra, considerando que o Brasil fica abaixo da linha do Equador, concordam?
“Não existe pecado do lado de baixo do Equador
Vamos fazer um pecado, rasgado, suado a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor”
Sandra Falcone
Mas voltando à natureza. Na pressa, no cotidiano asfixiante de todos os dias, acabamos passando batidos, principalmente nos países do terceiro mundo. Falando em terceiro mundo, quem criou os outros? e quem disse que são três? Na minha modesta opinião, captando o que o mundo nos apresenta em technicolor todos os dias, temos, por baixo, uns dez países abaixo do terceiro mundo. Outra coisa que me encafifa muito é a expressão país emergente, quando se referem ao Brasil. Somos emergentes do quê? Talvez a expressão correta fosse submersos. Enfim, essa coisa de perguntas com respostas que já sabemos – de cor e salteado – é coisa de cronista.
Vamos ao que interessa.
Resolvi procurar uma expressão que pudesse traduzir o trabalho que vejo em “câmara-lenta” sendo desenvolvido pelo Congresso, anos e anos a fio. É lógico que toda regra tem exceção, estão espertinhos, orelhas em pé na redistribuição de renda para os partidos e no aumento dos seus próprios salários. Fiquem alertas. De olho! Não custa nada mandar um bilhetinho cronístico aos novos que tomaram posse, contribuir com alguma coisa, ainda que com umas poucas palavras. Quem avisa amigo é, não é? Não precisei pensar muito. A palavra preguiça veio bater na porta. Lá fui eu, como sempre, pegar no pé do Aurélio:
1) aversão ao trabalho – existe vacina para esse vírus? se existir, acho melhor vacinar os dez deputados que até hoje, dia 12 de fevereiro de 2007, não compareceram ao trabalho; ou seria uma misantrofobia?
2) negligência, indolência, mandriice – se valer a experiência anterior, estamos fritos!
3) morosidade, lentidão, pachorra, moleza – pode ser dengue. Pena que não prestam atenção nas campanhas educacionais: se cada um cuidasse da própria casa, já teríamos erradicado esse “mosquito” . Informação temos de sobra, o que falta é conscientização.
4) pau a que estão pregadas as cangalhas da canoura – Caramba! preciso ver o que é isso, pra mim tão ininteligível como determinadas atitudes dos nossos parlamentares..
5) designação comum aos mamíferos desdentados da família dos bradipodídeos, arborícolas, de pelagem muita densa e longa, membros muitos desenvolvidos, e cauda rudimentar. Entre os seus pêlos vivem carrapatos, ou traças – que injustiça com os bichinhos. Não são preguiçosos, têm sono apenas. Costumam dormir cerca de catorze horas por dia. E quem quer ficar acordado com tanta barbaridade?
Bem... fiquei com preguiça de escrever mais sobre o mesmo assunto. Dá nos meus nervos de cidadã. E não sou o bicho-preguiça, não consigo “dormir no ponto” tantas horas. E de alguma forma a coisa está muito bem explicada pelo Chico Buarque e Ruy Guerra, considerando que o Brasil fica abaixo da linha do Equador, concordam?
“Não existe pecado do lado de baixo do Equador
Vamos fazer um pecado, rasgado, suado a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor”
Sandra Falcone
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