quarta-feira, junho 20, 2007

texto e trabalho gráfico: Sandra Falcone

sexta-feira, junho 15, 2007

Negritude

ainda cobram de ti
uma linhagem anônima?

sorri
Princesa

não és tu que
continuas amordaçada
pelo sangue que abraçou
os troncos
...são as bestas
com medo
dessa tua dinastia

poema e trabalho gráfico: Sandra Falcone

aí que saudade me dá!


eu e meu filho (seis anos de idade ) depois de um velório:
___mãe, quando a gente morre como a gente vai pro céu?
__numa fumacinha, meu filho, vai subindo, subindo, até chegar no céu.
__mãe, tem um morto no seu cigarro!
Sandra Falcone

quinta-feira, junho 14, 2007

A porta


Logo que cheguei no escritório, o meu colega, olhando-me com uma certa pena, comentou : você está “bem” caidinha hoje! Aposto que leu os jornais e assistiu os telejornais da manhã! Respondi desalentada: Antes fosse! Assim botava a culpa na Guarda-Civil-Metropolitana que encontrou mais um bebê no lixo. Nada disso meu caro! Estou um pouco desidratada… acho que comi um peixe estragado na sexta-feira - dor de barriga e que tais foram meus visitantes este fim de semana. O meu colega fez mais algumas perguntas e diagnosticou: pegou um rota-virus.
Feito o diagnóstico - antes que eu fosse consultar um médico - tratei de pesquisar esse novo elemento que participava do meu dia a dia. Na primeira pesquisa fiquei animada, pois o título dizia que a Secretaria de Saúde distribuía o remédio de graça (atualmente até injeção na testa eu tomo, se for de graça). Mas, infelizmente, não tinha nenhuma graça: o tal remédio era distribuído para menores e eu já sou mais do que “de-maior”. Na minha pesquisa encontrei tantos vírus, mas tantos, até vírus da mente (acho que faz tempo tenho um alojado nos meus neurônios: virus-cronístico), que acabei desistindo; sem contar que o tal rota-virus é muito promiscuo, até em galinha dá e se é uma coisa que eu detesto é a promiscuidade!Convencida do diagnóstico absolutamente errado, não resisti e considerando que o meu colega ainda me olhava penalizado, respondi: não tenho nenhum rota-virus, não. Foi o peixe mesmo! Meu colega encerrou o assunto: até pode ser, mas você esta bem caidinha... Esse “bem” foi tão acentuado que, na falta de definição para o meu “mal” (adoro paralelismo antitético), resolvi dar uma olhada no “bem”, já que dos males o melhor.Fui mais uma vez atrás do Aurélio. “Bem” sozinho ou em parceria é uma expressão maravilhosa.Revisar todas as definições “do bem” (qualidade atribuída a ações e obras humanas que lhes confere um caráter moral, austeridade, moral, ventura, favor beneficio, pessoa muito querida, amada) me fez um bem danado. Fiquei “de-bem” com a esperança e num “bem-estar” incrível. Poderia ser diferente? Nesse estado fiz uma ligação com um artigo que li faz alguns dias escrito por Selene Ramos (formada em teosofia e membro da Associação Brasileira de Feng Shui) no qual ela aponta a porta como o elemento mais importante de uma casa,pois representa a ponte entre o interior da residência e o mundo externo. Apenas no sentido de dar entendimento ao meu texto: Feng Shui é uma arte antiga chinesa de criar ambientes harmoniosos e a localização de energias . Mas voltando a minha conexão com o bem e a porta. Às vezes um simples olhar, ainda que num dicionário da língua portuguesa, é a porta para a harmonização. Hoje, não só abri a minha porta, mas fiz a ponte entre o meu mundo exterior e interior e o saldo foi positivo. O ruído das buzinas lá fora continua como sempre, numa sinfonia louca e desafinada, ouço vozes desencontradas, passos anônimos , uns mais apressados, outros mais lentos... frio, calor, vidas misturadas pelas calçadas, sorrindo, chorando, vontade de viver, morrer, duetos, tercetos, quartetos nem percebidos, exclusão social cantando aos quatro ventos em cada esquina, mas eu, aqui dentro, sou outra: estou de “bem” com o “bem”. Talvez seja esse o único caminho para se não aceitar, pelo menos não ficar de mal com a vida, e entender que a bestialidade humana existe e persiste.E sobreviver, mesmo sabendo que um ser frágil é jogado no lixo.
Legítima e humana defesa este meu estar de bem?
Sei lá!

texto:Sandra Falcone
foto:Gustavo Lanfranchi

quarta-feira, junho 13, 2007

A MISSA


diálogo com meu filho, aos 8 anos de idade, ouvindo um canto gregoriano .

___mãe, como esses operários cantam bem (com os olhinhos marejados).
___operários,meu filho? não entendi!
___esses ai lá na frente, com os cadernos de lição de casa, não estão cantando ópera?



ai que saudade me dá!



Sandra Falcone

o vira-lata



ninguém presta atenção
mais um menino de rua
drogado
colado
craqueado
um desgraçado qualquer
caído na calçada

e se apressam
o sinal vai fechar

o vira-lata
rabo inerte
observa
e se aproxima
e se aconchega


fecha os olhos
e vela o corpo
que jaz no lixo da calçada



poema: Sandra Falcone
Foto : Chico Forte

quinta-feira, junho 07, 2007

no início era o verbo


Sempre que começo a escrever uma crônica que tem como “mote” o estado brasileiro, não no sentido mais conhecido, ou seja, conjunto dos poderes políticos de uma nação mas, fundamentalmente, no modo de ser ou estar, situação ou disposição em que se acham as pessoas ou as coisas, modo de existir na sociedade, acabo olhando mesmo sem querer para o meu umbigo ou, melhor dizendo, o “meu estado como cidadã”. E como gosto de metaforar, sempre acabo encontrando uma metáfora apropriada. Hoje a metáfora escolhida é “estado metaestável”: estado em que uma substância (eu, cidadã brasileira) ou sistema (ao qual sou e todos os brasileiros são submetidos diariamente) pode permanecer, apesar de não ser estável nas condições físicas em que se encontra (substituir físicas por mentais). Resumindo a ópera: encontro-me num estado lastimável (em todos os sentidos possíveis e impossíveis).

Como boa brasileira que sou e, naturalmente, considerando o meu “próprio estado”, na tentativa de matar dois coelhos com um tiro só pensei num remédio, vacina, antídoto, qualquer coisa que venha, ainda que paulatinamente, a melhorar e, quem sabe (Deus é pai), sarar esses “estados “ . Pensei de tudo: novenas, matar um galo na encruzilhada do Senado e da Câmara, até, quem sabe, do Planalto, mas fiquei com tanta pena dos bichinhos (estou me referindo aos galos) que deixei pra lá. Até benzedeira! No entanto,fui forçada a desistir! É muita reza!! Precisaria de um mutirão de santos para ajudar lá no céu. Uma reza para um só seria sufocante e injusto - os inocentes não podem pagar pelos culpados, não é?

Dizem as estatísticas que o Brasil se encontra entre os países onde é mais utilizada a operação-plástica! Penso que essa estatística é muito restrita; se fossem fazer uma estatística profunda quanto às “operações”, com certeza estaríamos no topo da lista, com grande vantagem acima de qualquer outro país, abaixo ou acima da linha do equador.É absolutamente inacreditável a profusão de operações em curso, comandadas pela Polícia Federal (que demonstra uma grande e saudável independência ).É preciso muita imaginação para nomeá-las: Apagão, Navalha, Xeque Mate, Moeda Verde ! E olha que estou desconsiderando as outras mais antigas. Nem física quântica explica essa dimensão, ou seria “estado” ?

Inconformada como cidadã e firme nos meus bons propósitos - uma vez que que reza, pai de santo e outras simpatias não surtiriam os efeitos necessários, conforme se conclui dos meus esforços infrutíferos já relatados - nessa busca insana, pesquisei tudo que se pode imaginar (não vou nominar para deixar espaço para a Policia Federal criar outros codinomes), acabei topando com a musicoterapia que, dizem os entendidos holísticos, é uma forma poderosa de prevenir e tratar doenças. Essa prática originária no Extremo oriente, hoje com muitos adeptos pelo mundo afora, além de melhorar a auto-estima e o equilíbrio do corpo, transforma sensações negativas em positivas. Fiquei animada, talvez a coisa fosse por ai! Com a minha esperança velha e teimosa debaixo do braço, resolvi dar uma espiada na tevê Câmara e na tevê Senado e cheguei à triste conclusão de que eu, mais uma vez, deveria desistir das minhas boas intenções. Com pesar e desânimo verifiquei que o grande problema está no uso da palavra, já que a maioria de quem lá milita usa e abusa sem qualquer constrangimento, respeito, comprometimento, ou coisa que o valha. Desisti mais uma vez (caramba quanta desistência tem esta crônica ) de procurar qualquer outro remédio, quiçá até mesmo terapia, que não fosse a palavra, forte, verdadeira, fiel, consciente e lembrei daquele provérbio tibetano: as palavras não têm nem pontas, nem corte, mas podem ferir o coração de um homem". O meu sangra, diariamente.

Depois de tanta procura concluí que a minha missão como cidadã está na palavra ( por mais virulenta que eu possa ser). Esse é e será o meu caminho, porque acredito que as utilizando de modo consciente posso, de alguma forma, transformá-las em energia – e energia sempre se materializa: tudo o que somos hoje é resultado do que temos pensado (ensinamento budista) – alias, não consigo deixar de pensar :

"No início era o verbo", diz a Bíblia (João, 1:1)”. E o fim, pergunto eu? Pensando melhor: vou procurar o advérbio.




texto Sandra Falcone
imagem:masunouno's photos