segunda-feira, janeiro 15, 2007



Ela sempre me acompanhou com seu forte e viçoso brilho. Quando era pequena entendia meus sonhos e minhas lágrimas. À medida que fui crescendo conversávamos e seu brilho sempre me ofuscou fazendo com que me sentisse aureolada por uma luz brilhante. Uma luz que não deixava obscurecer as partes mais íntimas do meu coração. Nem nos momentos de dor. Cintilava em minha direção, trazendo energia e calor e transmitindo-me força e coragem. A minha estrela, imutável em beleza, fascinante em seu mistério exuberante, cujo fulgor jamais diminuiu, confiante e faceira a passear pelo azul do céu e encantar a todos que lhe contemplam infiltra muita paz em minha alma. E deixa que seu brilho opere uma metamorfose de confiança e fé nos momentos difíceis. Nos momentos alegres e de felicidade indescritíveis quando a vida surpreende com seu poder de suavidade e amor ela está como aliada fervorosa e presente, incentivando-me e embora distante na impressão visual protegendo-me e maravilhando-me com sua gentil soberania.Enxergo da janela seu apogeu e deitada procuro-a agora como em todos os momentos atraída pela claridade que circula em reflexos prateados e ilumina não só o aposento terreno como todos os cantos da minha alma fortificando-a .Posso entender que sua missão jamais acabará e então em prece suplico que ela permaneça ali,encantadoramente deslumbrante enquanto caminho por sendas inexploradas confiando plenamente em sua proteção inspiradora.

Vania Moreira Diniz

sábado, janeiro 13, 2007

ode a palavra I

responda!
com que palavras extirparei de mim
de ti e... de nós
esta passividade
maldita
covarde
diante de tanta violência?
como desfaço o caos
sem fragmentar?
onde encontro
essas palavras que desconheço?
que alquimia é essa?
... regresso ao ventre?

e se encontrar as palavras certas?
vou desfazer o que já foi feito?

num faz-de-conta?
ou na língua do pê?


Sandra Falcone 2006

tresandar


Por quê
desvairada alma
subir a montanha
dizendo-te alpinista
se és ermitão?

Desraigá-lo de ti?

Não mintas
nem disfarces
Não adianta
trepidas tanto !

Ouço daqui!

Tresloucada
Não percebes?
Tresandas!

Sandra Falcone
Retraços de Mulher/1998

quarta-feira, janeiro 10, 2007



Como quem planta a vida
ao pé de uma árvore,
as roupas brancas dadas ao sol
albergam de fé
o futuro que há.
.
Érica Antunes
Créditos da foto: Érica Antunes, "Varal", 2004.




RATOS

para T.S.Eliot


Já que um poeta de altíssimo coturno,
aliás velho gambazão, grave e soturno,
verteu tinta e talento, em versos caricatos,
para cantar a glória felina dos gatos,

eu, poeta de meia tijeliot, prometo,
na língua dos portugas e dos paragatos,
renunciar a tais glórias – e aqui vos submeto
estes meus versos camundongos sobre ratos.

O’ musas dos murídeos, que habitam os bueiros
e atormentam as noites brancas dos queijeiros!
Eu vos invoco e a vós suplico agora a que me
soprem engenho e arte em vosso escuro acme!

Ninfas de todos os mamíferos roedores,
que bebem nos esgotos negras ratafias,
soai o rataplã de vossos mil tambores,
que eu vou ratazanar em muitas freguesias.

Valei-me deusa Karniji dos trovadores
e dos ratos, valei-me nestes versos maus,
nestes versos meus, feitos a teclado & mouse,
o santo-daime vosso dai-me dos louvores.

Que eu, insolente, agora me ponho a cantar,
não como o príncipe dos negros e mulatos,
cuja pesada cruz não se ousa carregar,
mais ao modo, talvez, de Gregório de Matos:


Assef Kifouri

Guepardo


O guepardo e o gnu




O guepardo espreita, ao longe, a sua presa.
Não há qualquer misericórdia em seu olhar.
Só brilho – fino e frio – do aço de cortar.
O predador é um vulto (oculto) na surpresa.

A mãe lambe o pequeno gnu recém-nascido:
Viver de agora em diante é uma questão de sorte.
No entanto o vento sopra a favor da morte.
Inerme, fraco e lento – ele é o escolhido.

Eis que o caçador se descongela, avança,
O corpo esguio, coleando, como quem dança,
Passo após passo sobre patas de algodão.

Contra a manada ele arremete! A cem por hora!
Abocanha o filhote e o derruba no chão!
E, ali, ele o desventra – vivo – e o devora!


Assef Kifouri

Meu Bilac


A poesia para se manifestar muitas vezes dispensa palavras escritas.