quinta-feira, julho 02, 2009

inçaites (III)

faço versos
você os lê
eu choro
você sorri
... ficam os anéis
sem os dedos


Sandra Falcone


quarta-feira, julho 01, 2009

inçaites (II)


a velha louca
de boca oca
cantava aos quatro ventos
pela calçada
... já fui bonita





imagem e poema: Sandra Falcone

segunda-feira, junho 29, 2009

hai kais

A chuva fininha cai cai
e os telhados molhados lembram
achocolatados hai kais

quinta-feira, junho 25, 2009

luas esvoaçantes


Estava cansado.Muitas luas atravessara. O vento ao seu lado, machucando as feridas ainda abertas. Entrou na caverna e, de cócoras, lambeu o corte mais profundo, grunhiu de dor. Ouviu um leve ruído, pulou para um canto da caverna em posição de ataque. A caverna voltou a ficar silenciosa. Sossegou e voltou a lamber-se. Logo depois adormeceu. Acordou com mãos ásperas passeando pelo seu corpo. Na escuridão percebia apenas os olhos e também sentiu o cheiro. Os olhos não eram da caça mas o cheiro era de fêmea. Ficou imóvel. Sem entender a razão deixou-se tocar. O coração batia de um modo diferente, não havia o medo, mas assustava. A sensação era boa como o rio que descia as montanhas... fresca e incomodante.
Fechou os olhos...O corpo sobre o seu, algo incompreendido, mas desejado. Seu corpo tremia, uma vontade de penetrar como uma lança, num mundo mágico que desconhecia.Não entendia o que acontecia, mas queria mais e mais...sem parar, uma fome que não era fome, mas faminta. Todo seu corpo teso. E, de repente, do fundo das suas entranhas todas as luas explodindo juntas. Urrou, como uma fera ferida. Depois o silêncio, o cheiro foi se distanciado. Cansado, adormeceu. Muitas luas vieram, suaves, esvoaçantes.Sonhou que era um pássaro. Acordou leve.Saiu da caverna. Olhou para o céu. A fera chegou de repente. Foi devorado.

Do fundo da caverna um grito fino e solitário espantou a ave de rapina que aguardava os restos.



texto e imagem: Sandra Falcone

terça-feira, junho 23, 2009

fim sem começo

doi-me
saber que preferes
o silêncio
á palavra que transmuda
que teu consolo
é viver ao avesso
como se buscasse
na palavra inerte
e no silêncio
tolo
um diapasão
a modular
um fim sem começo


poema: Sandra Falcone

segunda-feira, junho 22, 2009

onde vc estiver

não sei colocar a música, vai o endereço!

http://www.youtube.com/watch?v=DxJYFrmrdjo

Hein? Ronaldo?

Zequinha


Nasceu prematuro, do tamanho de um sagui, aliás, não só de tamanho, mas o jeitinho: enroladinho na incubadeira, as mãos pareciam maiores do que os pés. Ficou ali quase um mês até que o hospital municipal deu alta. A mãe, Nair, já quase nos quarenta, parecendo quase cinquenta, não queria levar. Como cuidar daquela miniatura de gente, tendo que trabalhar, e mais três outros meninos? Além disso, sentia que o menino não estava “feito” ainda. Mas não teve jeito, quando sugeriram uma adoção, pegou o moleque rapidinho e sumiu do hospital.
Nair é mulher de Antonio, zelador há mais de 20 anos de um prédio nos Jardins, que só não é mandado embora porque a indenização é alta e a maioria dos condôminos não quer pagar os seus direitos.
Antonio e Nair e os quatro filhos, uma escadinha, moram na cobertura do prédio, num quarto-e-sala. A mobília da casa vem das “doações” dos moradores – transporte de coisa velha é caro, não é? Nair passa o dia fazendo limpeza nos apartamentos dos prédios vizinhos, é diarista, não tem carteira assinada e nem décimo terceiro , mas é feliz, porque pode vez por outra dar uma olhada nos moleques.
O pai resolveu apelidar de Zequinha, embora o nome fosse Gilmar, porque cresceu como nasceu, pequeno, quase feito. A escola pública na Avenida Paulista quase não aceitou a matrícula. Aos sete anos parecia ter três. Agora, aos dez anos, já aparenta quase sete. Não fala muito, é tímido, mas seus olhos são como um infinito de promessas quando diz bom dia, no elevador, de serviço, é claro. Mas se tem alguém no elevador, sai, como se não fosse a sua vez.
Certa tarde estava nos jardins do prédio sentadinho, tomando conta dos irmãos, ele, o menorzinho. Como sempre com a camiseta do Ronaldo. Não resistiu e perguntou a ele:
— E aí, Zequinha, você gosta de futebol? Ele respondeu muito educadinho:
— Eu gostava de ser jogador, mas sou pequeno, gosto mesmo é do Ronaldo, não sei por que meu pai não meu deu o nome dele, me chama de Zequinha e meu nome é Gilmar.
Encantada com aquele olhar luminoso:

— Gilmar foi um grande goleiro, talvez o mais famoso do Brasil, você nem tinha nascido quando ele era jogador. Além disso, é um nome forte.
— Eu sei, meu pai me disse. Mas eu gosto é do Ronaldo. Ele é demais!
Zequinha, além de ser pequeno, tem um distúrbio muscular: quando anda, parece que está andando de lado, sempre para esquerda... nunca em linha reta.
É... o Zequinha estuda na Avenida Paulista e mora numa cobertura nos Jardins. Com a camisa do seu ídolo e não anda em linha reta. Fica impossível deixar de pensar na entrevista do Ronaldo no mês de maio, quando coloca a culpa nos meninos pobres brasileiros o fato de entender que o seu filho deva ter uma educação européia. Que feio, Ronaldo !

Resta a pergunta: o que é andar em linha reta?hein? Ronaldo?

Sandra Falcone, maio de 2009