quarta-feira, julho 01, 2009

inçaites (II)


a velha louca
de boca oca
cantava aos quatro ventos
pela calçada
... já fui bonita





imagem e poema: Sandra Falcone

segunda-feira, junho 29, 2009

hai kais

A chuva fininha cai cai
e os telhados molhados lembram
achocolatados hai kais

quinta-feira, junho 25, 2009

luas esvoaçantes


Estava cansado.Muitas luas atravessara. O vento ao seu lado, machucando as feridas ainda abertas. Entrou na caverna e, de cócoras, lambeu o corte mais profundo, grunhiu de dor. Ouviu um leve ruído, pulou para um canto da caverna em posição de ataque. A caverna voltou a ficar silenciosa. Sossegou e voltou a lamber-se. Logo depois adormeceu. Acordou com mãos ásperas passeando pelo seu corpo. Na escuridão percebia apenas os olhos e também sentiu o cheiro. Os olhos não eram da caça mas o cheiro era de fêmea. Ficou imóvel. Sem entender a razão deixou-se tocar. O coração batia de um modo diferente, não havia o medo, mas assustava. A sensação era boa como o rio que descia as montanhas... fresca e incomodante.
Fechou os olhos...O corpo sobre o seu, algo incompreendido, mas desejado. Seu corpo tremia, uma vontade de penetrar como uma lança, num mundo mágico que desconhecia.Não entendia o que acontecia, mas queria mais e mais...sem parar, uma fome que não era fome, mas faminta. Todo seu corpo teso. E, de repente, do fundo das suas entranhas todas as luas explodindo juntas. Urrou, como uma fera ferida. Depois o silêncio, o cheiro foi se distanciado. Cansado, adormeceu. Muitas luas vieram, suaves, esvoaçantes.Sonhou que era um pássaro. Acordou leve.Saiu da caverna. Olhou para o céu. A fera chegou de repente. Foi devorado.

Do fundo da caverna um grito fino e solitário espantou a ave de rapina que aguardava os restos.



texto e imagem: Sandra Falcone

terça-feira, junho 23, 2009

fim sem começo

doi-me
saber que preferes
o silêncio
á palavra que transmuda
que teu consolo
é viver ao avesso
como se buscasse
na palavra inerte
e no silêncio
tolo
um diapasão
a modular
um fim sem começo


poema: Sandra Falcone

segunda-feira, junho 22, 2009

onde vc estiver

não sei colocar a música, vai o endereço!

http://www.youtube.com/watch?v=DxJYFrmrdjo

Hein? Ronaldo?

Zequinha


Nasceu prematuro, do tamanho de um sagui, aliás, não só de tamanho, mas o jeitinho: enroladinho na incubadeira, as mãos pareciam maiores do que os pés. Ficou ali quase um mês até que o hospital municipal deu alta. A mãe, Nair, já quase nos quarenta, parecendo quase cinquenta, não queria levar. Como cuidar daquela miniatura de gente, tendo que trabalhar, e mais três outros meninos? Além disso, sentia que o menino não estava “feito” ainda. Mas não teve jeito, quando sugeriram uma adoção, pegou o moleque rapidinho e sumiu do hospital.
Nair é mulher de Antonio, zelador há mais de 20 anos de um prédio nos Jardins, que só não é mandado embora porque a indenização é alta e a maioria dos condôminos não quer pagar os seus direitos.
Antonio e Nair e os quatro filhos, uma escadinha, moram na cobertura do prédio, num quarto-e-sala. A mobília da casa vem das “doações” dos moradores – transporte de coisa velha é caro, não é? Nair passa o dia fazendo limpeza nos apartamentos dos prédios vizinhos, é diarista, não tem carteira assinada e nem décimo terceiro , mas é feliz, porque pode vez por outra dar uma olhada nos moleques.
O pai resolveu apelidar de Zequinha, embora o nome fosse Gilmar, porque cresceu como nasceu, pequeno, quase feito. A escola pública na Avenida Paulista quase não aceitou a matrícula. Aos sete anos parecia ter três. Agora, aos dez anos, já aparenta quase sete. Não fala muito, é tímido, mas seus olhos são como um infinito de promessas quando diz bom dia, no elevador, de serviço, é claro. Mas se tem alguém no elevador, sai, como se não fosse a sua vez.
Certa tarde estava nos jardins do prédio sentadinho, tomando conta dos irmãos, ele, o menorzinho. Como sempre com a camiseta do Ronaldo. Não resistiu e perguntou a ele:
— E aí, Zequinha, você gosta de futebol? Ele respondeu muito educadinho:
— Eu gostava de ser jogador, mas sou pequeno, gosto mesmo é do Ronaldo, não sei por que meu pai não meu deu o nome dele, me chama de Zequinha e meu nome é Gilmar.
Encantada com aquele olhar luminoso:

— Gilmar foi um grande goleiro, talvez o mais famoso do Brasil, você nem tinha nascido quando ele era jogador. Além disso, é um nome forte.
— Eu sei, meu pai me disse. Mas eu gosto é do Ronaldo. Ele é demais!
Zequinha, além de ser pequeno, tem um distúrbio muscular: quando anda, parece que está andando de lado, sempre para esquerda... nunca em linha reta.
É... o Zequinha estuda na Avenida Paulista e mora numa cobertura nos Jardins. Com a camisa do seu ídolo e não anda em linha reta. Fica impossível deixar de pensar na entrevista do Ronaldo no mês de maio, quando coloca a culpa nos meninos pobres brasileiros o fato de entender que o seu filho deva ter uma educação européia. Que feio, Ronaldo !

Resta a pergunta: o que é andar em linha reta?hein? Ronaldo?

Sandra Falcone, maio de 2009


sábado, junho 20, 2009

Parole

Palavras, palavras, ela sorria e repetia, palavras. Procurou o CD. Parole... linda música, linda... ainda bem que entendia italiano. Parole. A música dizia de palavras deixadas ao vento, ao acaso, era isso? Não tinha muita importância, mas caía na sua alma assim. Aumentou o volume, abriu a janela do carro. O vento excitava-a. De um modo geral toda a natureza tinha esse poder sobre ela, excitava-a. Sentiu-se molhada de novo. Era gostoso, íntimo, sentir-se molhada, um prazer secreto, particular, só seu. Egoísta? Sim, mas era tão gostoso! Delicioso! Tocou-se leve sobre o short, lentamente. Não se tratava de masturbação, apenas carícia, sabia como se dar prazer. Sorriu.

De repente, cruzou aquele rosto enevoado, ao seu lado, na moto. Mas havia o olhar, forte, sob a aba do capacete levantado. Difícil dirigir com aquela moto, lado a lado, seguindo-a. O olhar também seguia, quieto, masculino, indecente, perturbador, dominador. Sempre que lhe assediava um olhar assim tornava-se irresistível a vontade brutal de litigar. Sim, era essa a palavra: litigar. Aquele olhar, olhando, olhando, sem licença. Não titubeou! Enfrentou, francamente, sem peias.

Ele olhando, ela acariciando...


De repente, a mão dele, num gesto, quase imperceptível: siga-me, siga-me. Seguiu, um longo tempo. Litoral norte. A estrada vazia. Dirigiam em alta velocidade. O sinal da lanterna, outro gesto, agora nervoso, a mão dele: à esquerda, esquerda. A estrada pequena, de terra, tortuosa e, ao fundo, o mar. Ela seguindo. Desligou o carro. A moto chegando, agarrou-se a ele, à garupa, o corpo forte, duro, as mãos se procurando, cúmplices. Juntou-se àquele corpo suado, cheirando a gasolina.


Não conhecia o lugar desértico. Não tinha medo, nenhum. Uma confiança absurda, agarrada àquele desconhecido. Ele percebia, sabia disso no toque de seus dedos, vez por outra, aquietando-a, tranqüilizando-a. Não teve pressa. Não queria a pressa. As rodas marcando a areia da praia branca. A pequena montanha. Não se falavam, nada. Apenas as respirações, nada mais. Evidente a familiaridade dele com aquele lugar, cada pedaço, cada canto escondido. No fim do atalho, moto desligada, pegou-a nos braços. Chegaram ao topo. Com suavidade, libertou-a, afastou-se um pouco, tirou o capacete, mostrou-se. O rosto marcado, agreste, emoldurando aqueles olhos, a boca larga. Abraçaram-se, quietos, misturando-se com a paisagem. O mar falava-lhes, sincopado. Os lábios na nuca vieram suaves, a língua lambendo-a, as mãos puxando seus cabelos.Torturaram-se por segundos na espera do encontro das bocas. O beijo chegando, lábios roçando, as línguas, o gosto da saliva. O encontro das bocas machucando-se, sangrando no beijo. Os seios tesos, dominados, judiados, os dedos dele pródigos atendendo ao pedido dela. Fêmea na grama, no chão. Ele olhando-a, de pé! Era forte, mais alto assim. Ficava pequena, gostava de ficar pequena. Olhavam-se, olhavam-se... litigavam, sem sombra de pudor. Despiram-se, naturais, obscenos. Nus, dois animais, famintos, já se sabiam. Anoitecia e ainda estavam lá, tocando-se, mordendo-se, cheirando-se, devorando-se com naturalidade.

Levantaram-se. Ela de novo na garupa até o carro, ele olhando, na moto. O mesmo sinal, ela seguindo. A estrada, a serra, a cidade já murmurando. Na esquina, o farol. Olham-se de novo, sorridentes, tranqüilos. O aceno final.

O ronco da moto ainda no vento. Ela sorri, procura o CD. Parole, Parole, Parole. Outro sinal. O menino. O revólver. O sorriso bruto. O estampido. Depois só a música, no último volume.


texto e imagem: Sandra Falcone