quarta-feira, dezembro 05, 2007

Vitória


minha cadelinha morcego
Sandra Falcone

segunda-feira, dezembro 03, 2007

guarda-chuva

Chove!

Hoje, como todas as tardes nesse verão de São Paulo chove e centenas de guardas-chuvas vem e vão, colorindo a Avenida Paulista. Vermelhos, amarelos, estampados, pretos. Gente apressada, nos pontos de ônibus, preocupadas com o que vão encontrar em casa, móveis boiando, aquele quartinho tão sonhado alagado. Outros simplesmente preocupados com o sapato novo de “grife”, tanta incoerência nas ruas desta cidade que tanto amo e nem por isso deixo de senti-la, à cada instante, com os seus contrates.

Guarda-chuva, quando eu tinha por volta de nove anos, era coisa de gente rica e eu era pobre.

A família tinha apenas um guarda-chuva: horrível, preto, enorme, masculino. Ganhamos do meu avô (tinha um igualzinho). Entregou-nos com pompa e recomendações: artigo de luxo, o melhor que existe por ai! O guarda-chuva foi pra cima do guarda-roupa e só era usado em casos de extrema necessidade, ou seja, quando o céu mandava brasa. Dilúvio! Nossa!Quanta responsabilidade quando chovia e eu levava para a escola Grudava nele feito chiclete. E que alívio quando voltava pra casa e toda orgulhosa mostrava pra minha mãe: intacto!Minha mãe sempre dizia: você é uma mocinha muita linda e cuidadosa.O pobre guarda-chuva foi envelhecendo, perdendo o brilho, capenga, uma ou duas varetas quebradas.
Minha mãe colocava um alfinete e pronto, o bichinho cumpria metodicamente sua missão.

No início das aulas cada professora dava uma listinha com o material do ano letivo e todos compravam no mesmo lugar - uma pequena livraria ao lado do Grupo Escolar.Bastava dar a classe e a professora, e já estava tudo separado num pacote.
Era uma delicia aquele pacote! Ficava ansiosa para voltar pra casa e olhar o que tinha dentro: encapar os cadernos... fazer uma forzinha logo na primeira folha do livro e do caderno e escrever meu nome....dava uma sensação de posse do saber. E eu me sentia muito importante!Chovia naquele dia, muito.

Minha mãe deu o dinheiro para eu comprar o meu material e o da minha irmã. Antes de começar a aula fui comprar. Só tinha o meu pacote. Voltei no fim da aula, o pacote da minha irmã continuava ausente e a chuva tinha ido embora.


Sempre gostei do cheiro de chuva quando ela vai embora.O ar fica alegre, e eu acabo ficando também. Até hoje!Bem, com o dinheiro desocupado na minha mão, e um puxa-puxa fazendo oi, uma groselha sorrindo e a longa volta para casa tendo por companhia um algodão-doce, branquinho, branquinho... eu e a mana não resistimos.O dia era lindo, claro, azul. Logo eu estaria abrindo o meu pacote, colocando meu nome, fazendo a florzinha. A boca lotada de doce. O algodão-doce esperando! O que mais eu poderia desejar? Era completamente feliz. Tão feliz que comecei a pular.

Pulei tanto que me desequilibrei e para não cair me apoiei no guarda-chuva e, sem querer, enfiei o pobrezinho num buraco...quando puxei de volta, fiquei com o cabo e algumas varetas, todas estrumbilhadas. Meu Deus do céu! Acho que foi a primeira vez na vida que fiquei com a brocha na mão. Fico ainda, mas já tenho uma certa experiência.A minha única preocupação era o guarda-chuva, mais nada. Como contar para minha mãe! E o meu avô? Bem, o mal estava feito, enfrentei. Imagino a minha cara de ré quando cheguei em casa, porque não precisei dizer nada.


Minha mãe foi logo perguntando: o que aconteceu?Eu, mais do que depressa, mostrando as varetas : foi sem querer, enfiei num buraco pra não cair e ficou assim...Que sorriso lindo deu quando percebeu que não havia acontecido nada comigo.Aquele sorriso compensou uns cascudos que eu e a mana tomamos quando ela descobriu que o dinheiro do material havia virado picolé....

....


O tempo passou e a China chegou, com todo o trabalho escravo que nos permite comprar guarda-chuvas a R$5, 00, em qualquer esquina.Mesmo sabendo disso, compramos, porque chove.

Falando em chuva tem uma aqui na minha janela. Escorrendo gotinhas delicadas e ritmadas. Cantando ou chorando?

Sandra Falcone

sexta-feira, novembro 30, 2007

Regresso



regressas
em metades
divididas em mil
outras metades
que não consegues juntar

e sob as sombras
de todas essas metades
nesse teu des-conjuntamento
eu teu recebo

com meus olhos de vidro
num tempo sem tempo
que não tem mais
onde ficar



...


acreditas?
sinceramente?
que o teu regresso
no dorso de palavras
doces tuas
que já foram minhas
trarão de volta
o cheiro de lavanda
dos nossos lençóis?

não
meu querido
regresses sim
mas de volta
a esses outros lençóis
que escolhestes à minha revelia

posso apenas devolver
o vidro de lavanda
é teu
sempre foi

no entanto
apenas o vidro
o perfume
evaporou !
Sandra Falcone

quinta-feira, novembro 22, 2007

Luzes

Parece que o verão chega agora aqui em São Paulo, nesta primavera, abafada, cidade fervilhando de pessoas que tem e não tem aonde ir e o quê fazer.

Tanta gente misturada no resto da noite de carros importados e blindados ás mãos estendidas.

A cidade começa a ficar iluminada, uma festa de luzes esperando o Natal.
Tão bonita de ver! Mesmo para aqueles que se confundem no lixo.Mesmo assim, mesmo para quem apenas olha, ou melhor, só pode olhar.

Talvez eu nada mais esteja fazendo do que aplacar a minha responsabilidade intrínseca de ser, dar um jeito na minha consciência de cidadã, quem sabe até me fazer de morta perante tanta pobreza, tanto desequilíbrio, sei lá… mas gosto tanto das luzes esperando o Natal: amarelas, brancas, vermelhas, azuis...

Luzes dão a sensação de conforto. São como gotinhas de alegria coloridas, piscando para a cumplicidade do sonho. Não consigo olhar as pequenas luzes piscando, piscando e ficar triste, não consigo! Juntas parecem indicar que a esperança é logo ali.

Se um mendigo, um só, um menino ou uma menininha, olhar e sonhar com as luzes já valeu a pena.
Um único sonho perambulando pelas ruas já vale a pena.
Um sonho de alguma coisa que nem precisa ser consciente.
Um sonho, que não seja pelo prato de comida...
Um único sonho, mesmo que dure o exato tempo do piscar de uma das milhares lâmpadas.

Enquanto penso nisso tudo me pergunto: que céu é esse que ainda teimo azul?


Sandra Falcone

segunda-feira, novembro 05, 2007

horas sem tempo (IV)


o sol na dolência
daquela tarde de maio
bocejava raios de luz
num azul quase sereno
pássaros retardatários
no último vôo diurno
esgueiravam-se
entre nuvens que dormitavam
o tempo suspenso
soprou sua impaciência
e acordou
a primeira estrela
poema: Sandra Falcone

quinta-feira, novembro 01, 2007

horas sem tempo (II)

fim de tarde
um céu pálido
me abraça

ouço o leve rosçar
que passa

espreito

apenas
um pássaro
perdido
seguindo a brisa

depois?
nada passa

nem o tempo


poema de Sandra Falcone

horas sem tempo (I)


houve um tempo
que o tempo não contava

depois houve um que apenas
fluía
desocupado

depois um outro mais presente
atento
incomodante

depois um longo tempo parado
consciente
doído


e agora este
com tão pouco
tempo
poema e trabalho gráfico: Sandra Falcone