domingo, maio 06, 2007

fragmentos XII



das tantas
dores humanas
morte
desamor
injustiça
solidão
doenças
abandono
ingratidão


todas de alguma
forma sempre
superamos

com um abraço
um sorriso
um olhar
um gesto
uma palavra
uma lágrima

no entanto existe
uma que é impossível
de superar

a dor de chorar sozinha !

Sandra Falcone

quinta-feira, abril 19, 2007

Minha janela

















Quantas vezes fui até a janela para olhar, com olhos de ver? Poucas. Normalmente para ver a fluência do tráfico ou se estava chovendo. Um olhar egoísta, pensando no meu conforto. A janela que mais olho é a do meu escritório, que fica na avenida Paulista. No entanto, sempre que por alguma razão meu olhar, como agora, é atento e consciente, meu mundo interior é atiçado e eu me sinto mais humana. Parte desse todo de alguéns que caminham, apressados. Onde a única coisa homogênea que noto são as calças jeans, porque cada um é único, singular. Não só no modo de andar, de carregar pacotes e pastas, de gesticular, mas no modo de ser. De lidar com seus fracassos, sonhos, acertos, ideais. De sentir as dores que circulam à sua volta e as suas...

Não muito tempo atrás, a quantidade de anúncios e outdoors deixava-me incomodada. Poluição visual, lavagem cerebral – dizia eu. Um dia percebi que tudo era uma questão de ótica. Hoje não fico incomodada, ao contrário, penso que tudo é o colorido, às avessas, da esperança! Alguém pode estranhar esta esdrúxula comparação, mas se pensar um pouco, vai ver que não é. É lógico que tudo que está aí exposto, uma parte ínfima da população pode se atrever a comprar (eu? nem pensar!), mas nada impede que isso nos faça sonhar, e sonhar, como disse Quintana, é acordar pra dentro. E é isso que precisamos – acordar pra dentro.

Já fui vítima dessa esperança! E aprendi com ela a acordar pra dentro. Estava mais pra lá do que pra cá, querendo pagar alguma coisa que não podia pagar, caminhando em direção a um banco para adiar o vencimento de um empréstimo. Provavelmente, alguma outra janela que me olhava percebia meus passos cansados e meus ombros caídos. Antes de entrar no banco, olhei ao acaso pra cima e vi um anúncio de um produto, num azul intenso... olhando pra mim. Não me lembro do produto, apenas do azul, daquele azul que lá do alto falava alguma coisa para mim. Voltei nos passos, não entrei no banco, não paguei a conta (que não podia pagar). Sabe o que fiz, antes de ligar para o gerente do banco e adiar a entrevista? Pintei uma aquarela todinha em azul e escrevi: minha esperança é azul! A aquarela – de péssima qualidade artística – guardei, como um relicário, na gaveta da minha mesa.

Sempre que meus ombros caem e meus passos ficam cansados, tiro da gaveta a minha esperança. É assim que me vejo olhando, agora, da minha janela, com minha esperança azul e teimosa: a pobreza que verifico, a grande diferença e exclusão social, misturada com a sujeira e o lixo das calçadas, na alma financeira do país, neste conglomerado de bancos, carros importados, camelôs gemendo. Todos sintonizados na mesma dicotomia cotidiana ... E uma controversa sensação de pluralidade e absoluta singularidade me invade. Tenho vontade de gritar: eu estou aqui ! Como se pudesse de alguma forma misturar-me em cada um daqueles corpos anônimos, numa projeção geométrica de solidariedade humana, ainda que física.

Do outro lado da avenida percebo um outro anônimo na sua janela. Apenas um vulto como eu ? Como diria Manuel de Barros: preciso do desperdício das palavras para conter-me.



Sandra Falcone

quarta-feira, abril 11, 2007

Entre brioches e queijos

Entre brioches e queijos


Espero que essa peleja entre governo e controladores de vôo terminem nos selinhos atuais, de modo que o “foco” da discussão seja outro: a instalação, necessária e urgente, da CPI do Apagão Aéreo, sem salamaleques políticos, sem atrasos, com a dignidade de apuração dos fatos - que o povo brasileiro merece. Assistindo de camarote essa quebra de braço entre o governo e os controladores de vôo tenho a nítida impressão de que o governo se aproveita pra jogar fumaça e, assim, desviar a atenção da mídia e do povo brasileiro. O velho e conhecido “panos quentes” . Os controladores de vôo pedem perdão, o presidente perdoa e, no café da manhã desta segunda-feira, entre um brioches e queijos agradece :a todos que contribuíram para que a gente tivesse uma Páscoa de tranqüilidade". Ficaram de-bem , de mãos dadas , CPI pra quê? Esta tudo resolvido, não é?

Aliás, nesse sentido, prevenir antes que remediar. Mais uma vez o governo se descabela para lotear o campo minado que, provavelmente, será essa CPI do Apagão Aéreo, caso a mesma venha a ser deliberada pelo Supremo Tribunal Federal. Em decorrência de regimento interno os governistas devem indicar dezesseis das vinte e quatro vagas da comissão. Fico arrepiada com esses números, considerando a “boa vontade “ dos governistas na instalação dessa comissão, boa vontade essa muito bem pontuada na desculpa esfarrapada do relator do recurso do PT contra a CPI ( Colbert Martins -PMDB-BA) que, entre outros argumentos furados, alega : fatos vagos ou imprecisos, bem como meras conjecturas, não podem constituir objeto da investigação parlamentar. Para a efetivação do direito da minoria, é indispensável que se encontrem presentes os requisitos para a instauração da investigação". Caramba! É muita cara-de-pau! Meras conjecturas? O que posso argumentar com quem antes de mudar de partido (era PPS) foi favorável á instalação da comissão? Talvez um tímido comentário, enquanto me jogo no chão e me finjo de morta, como cidadã: eu, hein? tabom...sei ! E o senhor deputado José Genoino (PT-SP), que defende tanto a não instalação da comissão? Não chega as cuecas? Não foi o suficiente? Quer mais? Ou será que a sua memória escafedeu-se? Quem em 1999 falou e disse , quando arquivaram o pedido de instalação da CPI dos bancos: a maioria não pode impedir uma investigação em nenhum Parlamento do mundo" , tendo afirmado :é uma vergonha uma CPI não ser instalada por decisão da maioria. Devolvo-lhe, como cidadã, a mesma pergunta que fez á época: "onde é que estamos? que democracia é essa?
Os atrasos de vôos e toda a problemática dos controladores de vôos já foram expostos em minúcias, todo mundo está careca de saber que ligados à estrutura da gestão atual, inclusive apontado em entrevista pelo presidente da Associação Brasileira dos Controladores de Tráfego Aéreo (Wellington Rodrigues , que entre outras coisas afirmou : “precisamos trazer paz aos controladores para que eles voltem a trabalhar com paz. Um controlador desconcentrado é extremamente perigoso” ...” é um problema de gestão que estamos trazendo para a sociedade, não uma questão salarial. O que queremos é uma nova estrutura de gerenciamento do controle de tráfego aéreo que existe no mundo todo. Estamos na contramão desse modelo de gestão” .
O que acontece, na verdade, é que a comissão não ficará restrita aos atrasos de vôo,nem a insubordinação ou não de controladores de vôos e acertos salariais. Contratos serão examinados, licitações apuradas , sigilos bancários quebrados e que tais e afins. É esse é o pavor do governo, não consigo entender outra razão. Essa história de que a oposição pretende manchar a imagem do governo é risível: a imagem do governo é apenas o reflexo do espelho do nosso cotidiano brasileiro. Tratem de mudar a maquilagem e não coloquem a culpa no espelho! Ou será que o prego no sapato está na razão direta daquele conhecido e incontroverso ditado popular? É isso? Quem não deve não teme?


Sandra Falcone

quinta-feira, março 08, 2007

Dia Internacional da Mulher




Prezado Senhor meu:


Com muito dengo gostoso
quengo e guloso
quero ouvir
você exigir:
deixa de se fingir
casta!
Vem cá mulher
basta!

E se assim o fizer
prometo em contrapartida
um dedo de verdade
dois de obediência
três de impetuosidade
quatro de indecência
cinco de carinho e doçura
paixão e loucura
bem dosados.

E num gueto
de sonhos desmesurados
a mão esquerda e a direita
com todos os segredos
dos meus dez dedos.

E se achar minha proposta
sob suspeita
e pouca
aceito de bom grado
uma contra-oferta
sou flexível
induzível
mão-aberta
e desde já acrescento
a minha boca
no pressuposto
de um tira-gosto
e descaramento.


Assim pelo exposto
eu me ofereço
atenciosa e maliciosa-
mente

Mulher-objeto!



Sandra Falcone

segunda-feira, março 05, 2007

eu por eu


Sandra Falcone

meu cão


Bilac sonhando!
Foto e estudo gráfico
Sandra Falcone

promoção




estou promovendo
a mim mesma
numa grande liquidação
num combate espontâneo

ABAIXO A INFLAÇÃO

pague uma e leve cinco
não aceito troca nem devolução

ladrão que rouba ladrão
tem cem anos de perdão
poema e gravura
Sandra Falcone