domingo, maio 30, 2010

Não sabes





















Quanto me custa
não te dizer:
descubra-me
aquieta no silêncio dos teus dedos
meus cansaços
nos teus braços o meu corpo solitário
no teu beijo todas as mulheres que amaste
não sabes quanto me custa
nâo te dizer:
sinta-me assim como a tua mulher primeira
que embriaga as madrugadas
e se desmancha
nas marés e luas cheias
em sonhos de prazer
nâo sabes quanto me custa
nâo te dizer
ficar às portas do quase
inquieta
sem lugar algum
mulher/fêmea
imagem e poema: Sandra Falcone

terça-feira, abril 06, 2010

poema dedicado ao Luiz





foram quantos os sonhos que reinventastes?

quantas as vezes que em ti mesmo renacestes ?

contempla o pôr do sol da tua história

que a brisa virá

num perfume agri-doce

e afagará as marcas da tua memória

e

uma vez mais renascerás !


poema de Sandra Falcone



Sandra Falcone







segunda-feira, março 15, 2010

azulã


Demorou muitas manhãs, presa na gaiola dourada, para entender que o seu nome era Sara. Certa manhã ao acordar notou que as portas da gaiola dourada estavam abertas.Incapaz de resistir ao azul do céu fugiu! Queria voar, sem rumo, sobrevoar em desenhos misteriosos campos, rios, ouvir cachoeiras, brincar com nuvens passageiras. E quanto mais voava longe, abraçando o infinito, uma dor profunda machucava seu pequenino coração.
Um dia, exaurida, voltou para sua gaiola dourada que permanecia no mesmo lugar de portas abertas. Um sabiá que passava vendo-a de novo entre as grades compadecido perguntou:

_porque permaneces aqui?as portas estão abertas, não percebes, podes voar !

A azulã orvalhando em sorrisos a gaiola dourada respondeu:

_sei que posso voar, mas se eu voar quem me dirá ,quando a manhã pousar no rosto das trevas e lentamente as grandes portas da madrugada deixarem entrar o amanhecer? Bom dia D. Sara, passe um bom dia na sua gaiola dourada?

texto: sandra falcone

domingo, novembro 08, 2009

poema da loucura


aqui onde estão os versos que escrevo
trago uma faca afiada
e se for preciso ainda que
custe o eterno exílio
esfaqueio até a morte
todas as palavras secas
estéreis de emoção
e gravo a fogo no peito
um imenso sim
para a loucura
que é viver
por viver
simplesmente
agora !
Sandra Falcone

sexta-feira, novembro 06, 2009

O "az" !




Todo o seu sonho sempre se resumira: um lar, filhos e um bom homem ao seu lado, honesto, trabalhador e, fundamentalmente, provedor. O mais era periférico: dinheiro, viagens, etc. etc..No entanto, aos 50 anos, tinha, exclusivamente, os periféricos. Mulher de muitos amores, no entanto, todos abortados pelos periféricos. Não mais de uma vez ouvira: essa Luiza é muita areia pro meu caminhão. Apesar dos pesares não desistia. Quantas e quantas vezes não percebia, no olhar da amiga, da prima e da irmã, a inveja pelos seus periféricos? Quantas e quantas outras vezes não tinha vontade de gritar : tudo o que quero é um vida igual a vocês.Um dia ele chegou. Um homem de fala mansa, hábitos simples, aposentado, um pouco caído para a idade. Superou todas as diferenças que dia a dia se acentuavam, especialmente na cama. Na verdade ele era uma lástima, de 0 a 10, no máximo: 0,05. Mas fez com que ele sempre achasse que era 10. Convencido e maravilhado da sua capacidade recém descoberta (um az na cama) trocou-a pela primeira jovem de 25 que encontrou. Evidentemente a jovem deu a nota certa. Separam-se. Atualmente é um assíduo freqüentador de centros espíritas de toda a natureza. Esta tentando desenvolver-se. `As sextas-feiras, invariavelmente, mata um galo preto e larga nas encruzilhadas da periferia. Para os amigos mais íntimos, inconformado, confidencia: nunca acreditei em macumba, mas, depois que deixei Luiza, foi preciso. Mulher trocada é um perigo. Fez um trabalho pesado contra mim, podem acreditar, não consigo mais me ajustar com nenhuma mulher.
Sandra Falcone

fragmentos - XX

quando esta porta se fechar
e meus versos poucos
se dissiparem na poeira do tempo
quero apenas exalar
um cheiro de jasmim
na saudade de alguém



sandra falcone

quinta-feira, novembro 05, 2009

Galismo? Não, vampirismo!



Tem-se notícia que a Juíza da 5ª. Vara Fazendária de João Pessoa concedeu liminar autorizando briga de galos no Estado. No seu absurdo despacho atendeu a um pedido da Associação de Criadores e Expositores de Raças Combatentes da Paraíba entendendo que seus sócios estão impedidos de praticar o esporte galismo, acrescentando nas suas justificativas que se trata de um esporte milenar.

Chamar de esporte essa barbárie? Ferir e mutilar animais de qualquer espécie, submetê-los aos maus tratos de uma maneira ignóbil é esporte? Só se for na cabeça dessa senhora que não tem o menor senso de humanidade. Alega ainda que não há no ordenamento jurídico vigente e norma que proíba a prática do esporte denominado popularmente de briga de galo. E precisaria minha D. Juíza? Mesmo se não houvesse lei federal que criminaliza os maus-tratos?

O que me espanta é a indecente justificativa da Associação de Criadores e Expositores de Raças Combatentes da Paraíba que tem a desfaçatez, para não escrever algo muito mais pesado,de invocar a Constituição brasileira como lastro da sua bandeira tarjada com o sangue dos pobres animais: "ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal". E ainda tem a petulância de dizer que as autoridades são pressionadas ou mal informadas.

E de pensar que este entendimento não é isolado, que Desembargadores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso justificaram manutenção das rinhas de galo como sendo "cultura nacional" e que nos últimos 11 anos foram três julgamentos, todos favoráveis à associação que mantém a rinha, dando guarida a lugares imundos, indefesos animais se digladiando, com homens gritando selvagemmente, enquanto os animais sangram , apostando dinheiro?! Galismo? O que é isso gente! São vampiros fantasiados de desportistas.

Cultura Nacional? Vergonha Nacional, isso sim. Retrocesso vil.

Esporte?Caramba, usar esse santo nome em vão, deveria tipificar crime hediondo e inafiançável. Onde o galismo contribui para a formação, desenvolvimento, aprimoramento físico, intelectual e psíquico dos praticantes e espectadores. Cria identidade esportiva para a inclusão social?
Só mesmo recorrendo a alguns versos de Antero de Quental para encontrar alento!

(*)... Sim, montes! onde vamos? onde vamos,
Que a criação, em volta a nós pasmada,
Emudece de espanto, se passamos
Em novelos de pó sobre essa estrada?...
As águias do rochedo, e a flor, e os ramos,
E a noite escura, e as luzes da alvorada,
Perguntam que destinos nos consomem...
E os astros dizem onde vai o Homem? ...”

(À HISTÓRIA/III/ANTERO DE QUENTAL

Texto: Sandra Falcone