quarta-feira, junho 17, 2009

Diálogo com a dor (II)


Faz alguns dias, assistindo a um programa de tevê sobre os sem-teto, moradores de rua, não consegui deixar de me perguntar: como conseguem sorrir? essa parte enorme da população, cerca de dois milhões de pessoas, que sofrem fome, descaso, exclusão? que são aviltadas diariamente pelas autoridades constituídas e por nós mesmos, ainda que inconscientemente? nos nossos passos apressados de cada dia pelas calçadas, achando natural seres humanos dormir em portas de bancos cujos lucros representam parte substancial do nosso PIB? que, quando muito, obtêm seu sustento no lixo, na sujeira?
Queimados vivos! Duas notas no jornal popular, algumas frentes de direitos humanos e, pronto, dever cumprido: o esquecimento!
De onde vem essa força que os faz sorrir até mesmo pelo nada que lhes é oferecido todos os dias? com as bocas desdentadas? De onde vem a força que nos faz seguir em frente, com uma pena que dura até a próxima esquina? que muitas vezes é aquecida por uns vinténs? com a boca cheia de dentes, pivôs e implantados?
Repulsa? Quem deveria sentir repulsa?
Na semana passada, assistindo a um depoimento de um torturado político, fiquei arrasada com a definição dele dos gritos da tortura. Algo assim: quando os gritos eram provocados por choques elétricos, eles explodiam das entranhas do torturado, como um rugido.
Alguém, ao ler esta dicotomia entre o sorriso do humilde e o grito do torturado vai me tachar de, no mínimo, desvairada. Até pode ser. Mas é assim que eu sinto! O rugido é o mesmo, moral, física e espiritualmente.
E quando um anônimo cruza o meu caminho, sujo e maltrapilho, e sorri, sinto-me a mais vil torturadora, porque faço parte desse todo. A minha impotência ou covardia é punhal de fino corte.
E sem forças para enfrentar a verdade que me olha frente a frente sem piedade, me refugio nas palavras e percebo o quanto meu sorriso e meu grito estão se materializando em cada silaba, em cada oração.
Rugem das entranhas das minhas palavras e se aboletam neste texto à minha revelia.


Sandra Falcone

sábado, junho 13, 2009

pontuando



É meu modo de viver, pontuando.
Talvez por essa razão, inconscientemente, como sou humana, imperfeita, não pontuo bem, mesmo quando presto atenção no texto. E mesmo me submetendo à tirania da gramática, procurando entendê-la... nem assim!
Sinto a vida não raro entre vírgulas, um amando aqui, uma subordinação ali, muitos apostos de mau gosto no meio do caminho. Um vocativo nostálgico, correndo no paralelo. Talvez por essa razão, acabei tendo uma certa afinidade, vamos dizer assim, pela vírgula. Não vou negar que ela é bem chatinha quando explica o óbvio. Virgular é como viver, sem terminar o texto. Talvez seja isso que me faz olhá-la com tanta simpatia e talvez em função dessa simpatia eu virgule a granel. Dizem que o que abunda não prejudica
Se a coitadinha, por minha causa, cometer algum crime gramatical hediondo, desses inafiançáveis, procuro um bom advogado: o revisor. E entrego a ele a causa! Além de defender as pobrezinhas da execração dos literatos que jamais saberão do crime (sem cadáver não há como comprovar o crime ), as eliminadas sem a menor contemplação não poderão me acusar de ingratidão! Não fui eu. Foi ele, o revisor.

Mas de uma coisa eu sei, definitivamente – não gosto do ponto final. Detesto! Alguma coisa na vida tem ponto final? Tem? Quantas vezes na vida eu disse um não ou um sim que achei definitivo. E depois fiquei com o pincel na mão... Ah! maldito ponto final. Se tivesse recorrido às conjunções, estaria protegida por uma sábia vírgula: porém, no entanto, contudo, todavia.
Bestice minha. Por que não posso capitular, ou melhor, virgular?
Mas não é por isso que não gosto do ponto final. Simplesmente não gosto porque não acredito nele. Nada é definitivo, nada! Nem a morte, aí está o infinito a desdizer o finito. Só gosto dele quando fica disfarçado num paciente dois-pontos; quanto fica juntinho da vírgula num fraterno ponto-e-vírgula e quando se transforma numa deliciosa reticência...
Bem... é assim que eu sinto, não consigo aceitar contra-argumentações e ponto final.
Sandra Falcone

domingo, junho 07, 2009

sábado



olho à minha volta
o jornal desarrumado
no sofá
embrulha sangue
uma foto de mulher pelada
o resultado do jogo
o horóscopo do dia
os índices Dow Jones e NASDAQ
no colo das palavras cruzadas

pela janela
sons e ruídos me contam
que lá fora a vida continua
em acordes desafinados
e que os anônimos
são partes de mim

devagar
a solidão me abraça
e os meus sonhos
pálidos e serenos como o tédio
se entregam ao silêncio

enquanto esperam
que se finde mais uma tarde de sábado
estável
se aconchegam junto ao meu cão
que abana o rabo

afinal
amanhã não é domingo?


Sandra Falcone

sábado, junho 06, 2009

devassa

coragem!
gritam os meus sentidos

coragem!
gritam com mais força
ainda

olhe-se
ordenam

fuja do reflexo raso desse espelho
de todos os dias
não espere o amanhã
faça a devassa
agora
só assim nesse combate
se libertarás dessa
estreita paisagem de si mesma

ainda que dilacerada a alma
rouca
encontrarás todos os seus eus


medo?eu?
quero responder
... e não consigo!




poema e imagem: Sandra Falcone

segunda-feira, junho 01, 2009

doce tessitura

tentei ficar contemplativa
como estátua
quieta
sem um só soluço
e vem a brisa e diz:
será um bom dia
e se a chuva tocar a terra
olhe as flores

e vem a chuva
as flores se abrem
nos primeiros respingos
e me acenam
em pedacinhos de perfume
no colo do vento

comovida
me desfiz
em mais de um só soluço
e assim desfeita
...me refiz
não mais estátua
apenas um perfume
um cheiro de lavanda
num dia de doce tessitura
Sandra Falcone

sexta-feira, maio 29, 2009

luz e sombras

Lá vem ela
D. Maria
correndo
sacola de plástico
cesta básica
arroz e feijão
farinha
bolacha de maizena
talvez um pouco de pão?

o silêncio da fome
escorre na enxurrada
sem pedir licença
(nem poética)

esperam de mim
versos lúdicos?
ora!
não tenho nenhum

não faltou vontade
e sim verdade
a teoria na prática é outra


Ravel e Debussy?
Clair de Lune?
ou o Rap rasteiro?

quem sabe no domingo?
a noite
com o efeito de luz e sombras
eu consiga
olhar as estrelas
longínquas
e escurecer estas que pipocam
nas ruas tintas de sangue!




poema e imagem: Sandra Falcone

Daquêm

O meu nome
no canto do teu silêncio
ouvi

tuas mãos
tão esquecidas das carícias minhas
senti

teus olhos
tão distantes da verdade um dia nossa
alcancei

a tua boca
não mais sedenta do beijo meu
bebi


deixastes a porta
entre-aberta


sandra falcone
retraços de mulher/1998