domingo, junho 07, 2009

sábado



olho à minha volta
o jornal desarrumado
no sofá
embrulha sangue
uma foto de mulher pelada
o resultado do jogo
o horóscopo do dia
os índices Dow Jones e NASDAQ
no colo das palavras cruzadas

pela janela
sons e ruídos me contam
que lá fora a vida continua
em acordes desafinados
e que os anônimos
são partes de mim

devagar
a solidão me abraça
e os meus sonhos
pálidos e serenos como o tédio
se entregam ao silêncio

enquanto esperam
que se finde mais uma tarde de sábado
estável
se aconchegam junto ao meu cão
que abana o rabo

afinal
amanhã não é domingo?


Sandra Falcone

sábado, junho 06, 2009

devassa

coragem!
gritam os meus sentidos

coragem!
gritam com mais força
ainda

olhe-se
ordenam

fuja do reflexo raso desse espelho
de todos os dias
não espere o amanhã
faça a devassa
agora
só assim nesse combate
se libertarás dessa
estreita paisagem de si mesma

ainda que dilacerada a alma
rouca
encontrarás todos os seus eus


medo?eu?
quero responder
... e não consigo!




poema e imagem: Sandra Falcone

segunda-feira, junho 01, 2009

doce tessitura

tentei ficar contemplativa
como estátua
quieta
sem um só soluço
e vem a brisa e diz:
será um bom dia
e se a chuva tocar a terra
olhe as flores

e vem a chuva
as flores se abrem
nos primeiros respingos
e me acenam
em pedacinhos de perfume
no colo do vento

comovida
me desfiz
em mais de um só soluço
e assim desfeita
...me refiz
não mais estátua
apenas um perfume
um cheiro de lavanda
num dia de doce tessitura
Sandra Falcone

sexta-feira, maio 29, 2009

luz e sombras

Lá vem ela
D. Maria
correndo
sacola de plástico
cesta básica
arroz e feijão
farinha
bolacha de maizena
talvez um pouco de pão?

o silêncio da fome
escorre na enxurrada
sem pedir licença
(nem poética)

esperam de mim
versos lúdicos?
ora!
não tenho nenhum

não faltou vontade
e sim verdade
a teoria na prática é outra


Ravel e Debussy?
Clair de Lune?
ou o Rap rasteiro?

quem sabe no domingo?
a noite
com o efeito de luz e sombras
eu consiga
olhar as estrelas
longínquas
e escurecer estas que pipocam
nas ruas tintas de sangue!




poema e imagem: Sandra Falcone

Daquêm

O meu nome
no canto do teu silêncio
ouvi

tuas mãos
tão esquecidas das carícias minhas
senti

teus olhos
tão distantes da verdade um dia nossa
alcancei

a tua boca
não mais sedenta do beijo meu
bebi


deixastes a porta
entre-aberta


sandra falcone
retraços de mulher/1998

Pôr de mim


na minha praia
meus pés descalços
a cada passo
contam de mim
meu corpo ardendo
transpira tanto
que sol a pino
é quem se queima
a praia invadida
o sol afogueado
buscam refúgio
na maré que chega
com a núvem branca
a praia se esconde
o sol se vai
e fica só
... um cheiro de mim
sandra falcone
retraços de mulher/1998

quinta-feira, maio 28, 2009