sábado, junho 06, 2009

devassa

coragem!
gritam os meus sentidos

coragem!
gritam com mais força
ainda

olhe-se
ordenam

fuja do reflexo raso desse espelho
de todos os dias
não espere o amanhã
faça a devassa
agora
só assim nesse combate
se libertarás dessa
estreita paisagem de si mesma

ainda que dilacerada a alma
rouca
encontrarás todos os seus eus


medo?eu?
quero responder
... e não consigo!




poema e imagem: Sandra Falcone

segunda-feira, junho 01, 2009

doce tessitura

tentei ficar contemplativa
como estátua
quieta
sem um só soluço
e vem a brisa e diz:
será um bom dia
e se a chuva tocar a terra
olhe as flores

e vem a chuva
as flores se abrem
nos primeiros respingos
e me acenam
em pedacinhos de perfume
no colo do vento

comovida
me desfiz
em mais de um só soluço
e assim desfeita
...me refiz
não mais estátua
apenas um perfume
um cheiro de lavanda
num dia de doce tessitura
Sandra Falcone

sexta-feira, maio 29, 2009

luz e sombras

Lá vem ela
D. Maria
correndo
sacola de plástico
cesta básica
arroz e feijão
farinha
bolacha de maizena
talvez um pouco de pão?

o silêncio da fome
escorre na enxurrada
sem pedir licença
(nem poética)

esperam de mim
versos lúdicos?
ora!
não tenho nenhum

não faltou vontade
e sim verdade
a teoria na prática é outra


Ravel e Debussy?
Clair de Lune?
ou o Rap rasteiro?

quem sabe no domingo?
a noite
com o efeito de luz e sombras
eu consiga
olhar as estrelas
longínquas
e escurecer estas que pipocam
nas ruas tintas de sangue!




poema e imagem: Sandra Falcone

Daquêm

O meu nome
no canto do teu silêncio
ouvi

tuas mãos
tão esquecidas das carícias minhas
senti

teus olhos
tão distantes da verdade um dia nossa
alcancei

a tua boca
não mais sedenta do beijo meu
bebi


deixastes a porta
entre-aberta


sandra falcone
retraços de mulher/1998

Pôr de mim


na minha praia
meus pés descalços
a cada passo
contam de mim
meu corpo ardendo
transpira tanto
que sol a pino
é quem se queima
a praia invadida
o sol afogueado
buscam refúgio
na maré que chega
com a núvem branca
a praia se esconde
o sol se vai
e fica só
... um cheiro de mim
sandra falcone
retraços de mulher/1998

quinta-feira, maio 28, 2009

quarta-feira, maio 27, 2009

sem perguntas e nem respostas

sem me tornar vitima
da minha própria inquisição
de repente acreditei de novo
e não atendi todas as ordens opressoras

entreguei-me
não mais submissa
nem fragmentada
às convenções hipócritas da razão

coragem?
não !
não há espanto
nem medo
das sensações impalpáveis
inesperadas

e se houver depois do tudo
o nada
restrito num momento breve
o que importa o quanto do tempo?
se a essência se revela?

quero viver este amor
sem prestar contas


imagem e poema: Sandra Falcone