quinta-feira, fevereiro 15, 2007

diálogo com a dor






como sobreviver em meio ao caos?
como enxugar com minhas lágrimas
tantas outras?
como expurgar a impotência
que amordaça a Alma?
como confortar
sem o abraço e as mãos entrelaçadas?
como harmonizar
esta revolta que dói tanto
e sintetiza-la
em palavras?
..........
enquanto o corpo frágil
é carregado
por pés descalços
em meio à paisagem caótica
misturando-se com
o lixo
mãos pequeninas e envelhecidas
buscam
alguma coisa
de repente
um sorriso brota
espontâneo
o quê esse doce
e pequenino menino
encontrou?
um pedaço de pão?
um brinquedo?
ou talvez
apenas uma esperança
teimosa
escapou da sua boca?




Sandra Falcone - em homenagem a todos os nossos meninos, cansados de dor.

fragmentos




quando as nuvens
num comboio
lento
anunciam
um fim de tarde
sinto-as
como se fossem meus
sonhos
desgarrados
desenhando
num vazio sem fim
minha esperança
teimosa
Sandra Falcone

sábado, fevereiro 10, 2007

Felicidade




Estava sufocada pela saudade , uma saudade que, vez por outra, abatia-se sobre ela, uma saudade do nada, sem forma, cor, tempo, nem lembranças... Uma saudade de ninguém e de todos... A saudade de uma esperança que passeou sobre seus sonhos, de olhar o infinito , ficar calada... e falar muito, gritar... Tanta coisa, tanta!

Num ímpeto, largou o trabalho, pegou a velha estrada e foi olhar o seu mar, o seu querido mar de Santos, confidente das horas boas e amargas, foi até ele, deixando que as ondas beliscassem seus pés e marulhassem verdades.

Ficou lá, quieta, ouvindo, ouvindo a profundidade do mar, a profundidade da verdade, a profundidade da Vida, tão profunda e misteriosa como aquele marzão imenso...

Às vezes pensava :

____ Como não se percebe a grandeza do mar , incrivelmente idêntico à vida... O eterno fluxo e refluxo, de mansidão e revolta ?

Uma coisa era absolutamente certa: amava o mar, especialmente aquele mar, que beijava as ruas de suas lembranças... Lembrava-se daquela canção:

___ É doce morrer no mar...

E quantas e quantas vezes morrera um pouco ali, naquele lugar e quantas outras renascera? Infinitas...

Uma vontade incontrolável de sussurrar palavras de amor ao mar :

___ Meu amor, querido, carinho, meu bem...

E, no ritual que aprendera , entregou-se docemente a ele, banhando-se na água fria lentamente, entre ondas suaves e truculentas, no gozo físico e psíquico, pleno, mulher, fera, alma...selvagem e submissa...

Depois, devagar seguiu pela noite e pela praia vazia, com as ondas ainda insatisfeitas , lambendo seus pés,querendo mais amor , acompanhada da sua solidão intrínseca de ser, embalada pelo ritmo do seu coração, da sua respiração, do seu sangue correndo entre milhares de veias, artérias... num dueto lindo, cantando a vida, na complexidade e simplicidade do macro e micro cosmos...

A brisa arrepiou a areia da praia, ouvindo o seu riso, escandaloso e feliz.

Sandra Falcone
(maio 2000)

terça-feira, fevereiro 06, 2007

fragmentos X


era noite e chovia !
as gotinhas batiam na janela
como um doce tamborim
plim, plim
plim, plim
e despertavam em mim
no mesmo ritmo
sentimentos intermitentes
raiva e saudade
num canto da
sala
sobre o sofá surrado
o seu paletó esquecido
e o cão me observavam

abri a porta
e sob a chuva
eu e o cão
nos tornamos
infimas partes do todo

ele latindo
eu chorando


o paletó ficou lá na sala
mofando
Sandra Falcone

inçaites (I)


a galinha
espreita
na porta semi-aberta
preocupada

na mesa posta
a cumbuca sussurra:
sossegue
hoje não é dia de canja

vez por outra
um feijão escapa
da panela
e cai
no bico da galinha
que cisca
aliviada


mãos calejadas
tricotam
um casaquinho com
restos de lã
no balanço da cadeira
de palhinha

a brisa enrolada
nas rendas das cortinas
na janela
boceja

lá fora
a Vida serena
cantarola :
já é quase noite
mas ainda é dia
Sandra Falcone

fragmentos IX


este passado que pende
na parede das tuas lembranças
como um triste
enforcado
não pode ser o teu guia
no resgate dos teus sonhos




e preciso mais
muito mais

re-escreva a tua história
ainda que a sangue
frio
Sandra Falcone

sábado, fevereiro 03, 2007

menina linda


não escute o barulho
da rua
nem essas vozes
desencontradas

deixe-se levar
por essa brisa leve
que atravessa a calçada-madastra
de todos os dias

cavalgue no seu dorso
e vá até aquela estrela
distante

lá do alto
olhe aqui
tudo é pequeno
insignificante
não é?


então sonhe o seu sonho
e acredite
que você pode
sonhar

enquanto se enrola
nesse jornal
nessa esquina
nessa calçada
nessa sujeira
nessa indiferença


.... dorme
menina linda
Sandra Falcone