terça-feira, fevereiro 06, 2007

fragmentos X


era noite e chovia !
as gotinhas batiam na janela
como um doce tamborim
plim, plim
plim, plim
e despertavam em mim
no mesmo ritmo
sentimentos intermitentes
raiva e saudade
num canto da
sala
sobre o sofá surrado
o seu paletó esquecido
e o cão me observavam

abri a porta
e sob a chuva
eu e o cão
nos tornamos
infimas partes do todo

ele latindo
eu chorando


o paletó ficou lá na sala
mofando
Sandra Falcone

inçaites (I)


a galinha
espreita
na porta semi-aberta
preocupada

na mesa posta
a cumbuca sussurra:
sossegue
hoje não é dia de canja

vez por outra
um feijão escapa
da panela
e cai
no bico da galinha
que cisca
aliviada


mãos calejadas
tricotam
um casaquinho com
restos de lã
no balanço da cadeira
de palhinha

a brisa enrolada
nas rendas das cortinas
na janela
boceja

lá fora
a Vida serena
cantarola :
já é quase noite
mas ainda é dia
Sandra Falcone

fragmentos IX


este passado que pende
na parede das tuas lembranças
como um triste
enforcado
não pode ser o teu guia
no resgate dos teus sonhos




e preciso mais
muito mais

re-escreva a tua história
ainda que a sangue
frio
Sandra Falcone

sábado, fevereiro 03, 2007

menina linda


não escute o barulho
da rua
nem essas vozes
desencontradas

deixe-se levar
por essa brisa leve
que atravessa a calçada-madastra
de todos os dias

cavalgue no seu dorso
e vá até aquela estrela
distante

lá do alto
olhe aqui
tudo é pequeno
insignificante
não é?


então sonhe o seu sonho
e acredite
que você pode
sonhar

enquanto se enrola
nesse jornal
nessa esquina
nessa calçada
nessa sujeira
nessa indiferença


.... dorme
menina linda
Sandra Falcone

Avenida Paulista (I)




de boca entreaberta num sorriso amarelo
a Rua Augusta espera um carro
importado
dois meninos despem a sua fome
no vermelho e abrem as lixeiras do MacDonald
sem pudor


um cão sarnento
caga na porta do hotel cinco estrelas
duas putas enclausuradas
numa viatura da polícia civil
fazem o sinal da cruz


a missa das 18 horas da Igreja de São Luís
começa 5 minutos atrasada
sob os acordes de Gounod
em profunda sincronia
num verde cristalino
a Avenida Paulista abre passagem
... para a indiferença
Sandra Falcone

livre-arbítrio (I)


num duelo banal
com o destino
num tempo sem espera
atravessa aquela
esquina
de sinal fechado
tinge as calçadas
de rubro
e fecha as cortinas
na contramão
Sandra Falcone

domingo, janeiro 28, 2007

quando o amor incomoda



Essa história de censurar um outdoor : aqui ? Um beijo gay, sob a expressão liberdade. Pois é. Conselho de Ética do CONAR determinou eliminar com todos os outdoors. A empresa publicitária em contrapartida substituiu o anuncio com : o amor não deveria incomodar! Gostei muito da forma com que essa empresa deu a face para a outra bofetada. Mas não gostei nada do CONAR.

Sou contra, isso é discriminação, não tem outro nome, estamos num século que, na minha visão, já se tem experiência suficiente para compreender essas opções... o amor, mesmo, não pode incomodar, só porque se trata de pessoas do mesmo sexo e porque na convenção dos humanos, muito mais ligada a religião: homem tem que gostar de mulher e vice-versa.

Convivo com muitas pessoas " fora do contexto" e posso dizer que a opção nada tem a ver com o caráter, este sim deveria importar.Temos preconceito com muitas coisas pequenas...a nossa discriminação existe sim ,embora neguemos, ainda ficamos admirados quando um negro ascende social, é ou não é?Observo na rua a admiração quando uma Mercedes é dirigida por um negro (que não é o chofer) e temos que chegar ao cúmulo de assegurar vagas nas Universidades para negros e deficientes. Estamos anos luz de uma evolução maior, essa é a verdade...Nunca vou esquecer um comentário que fiz com um médico inglês, estranhando o fato de tantos deficientes físicos andarem elas ruas de Londres.... sabe o que ele me respondeu? Engano seu, pelas estatísticas seu pais é maior, considerando o numero de habitantes, a única diferença é que não temos discriminação nenhuma e criamos todas as condições para que eles possam circular, ou melhor dizendo, viver.

Tem muita coisa que deveria discriminar, essa bandalheira que corre solta na nossa cara, isso sim.

Sandra Falcone