sábado, fevereiro 03, 2007

Avenida Paulista (I)




de boca entreaberta num sorriso amarelo
a Rua Augusta espera um carro
importado
dois meninos despem a sua fome
no vermelho e abrem as lixeiras do MacDonald
sem pudor


um cão sarnento
caga na porta do hotel cinco estrelas
duas putas enclausuradas
numa viatura da polícia civil
fazem o sinal da cruz


a missa das 18 horas da Igreja de São Luís
começa 5 minutos atrasada
sob os acordes de Gounod
em profunda sincronia
num verde cristalino
a Avenida Paulista abre passagem
... para a indiferença
Sandra Falcone

livre-arbítrio (I)


num duelo banal
com o destino
num tempo sem espera
atravessa aquela
esquina
de sinal fechado
tinge as calçadas
de rubro
e fecha as cortinas
na contramão
Sandra Falcone

domingo, janeiro 28, 2007

quando o amor incomoda



Essa história de censurar um outdoor : aqui ? Um beijo gay, sob a expressão liberdade. Pois é. Conselho de Ética do CONAR determinou eliminar com todos os outdoors. A empresa publicitária em contrapartida substituiu o anuncio com : o amor não deveria incomodar! Gostei muito da forma com que essa empresa deu a face para a outra bofetada. Mas não gostei nada do CONAR.

Sou contra, isso é discriminação, não tem outro nome, estamos num século que, na minha visão, já se tem experiência suficiente para compreender essas opções... o amor, mesmo, não pode incomodar, só porque se trata de pessoas do mesmo sexo e porque na convenção dos humanos, muito mais ligada a religião: homem tem que gostar de mulher e vice-versa.

Convivo com muitas pessoas " fora do contexto" e posso dizer que a opção nada tem a ver com o caráter, este sim deveria importar.Temos preconceito com muitas coisas pequenas...a nossa discriminação existe sim ,embora neguemos, ainda ficamos admirados quando um negro ascende social, é ou não é?Observo na rua a admiração quando uma Mercedes é dirigida por um negro (que não é o chofer) e temos que chegar ao cúmulo de assegurar vagas nas Universidades para negros e deficientes. Estamos anos luz de uma evolução maior, essa é a verdade...Nunca vou esquecer um comentário que fiz com um médico inglês, estranhando o fato de tantos deficientes físicos andarem elas ruas de Londres.... sabe o que ele me respondeu? Engano seu, pelas estatísticas seu pais é maior, considerando o numero de habitantes, a única diferença é que não temos discriminação nenhuma e criamos todas as condições para que eles possam circular, ou melhor dizendo, viver.

Tem muita coisa que deveria discriminar, essa bandalheira que corre solta na nossa cara, isso sim.

Sandra Falcone

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Diálogo poético


O Sonho


Além do Horizonte, atrás do brilho das Estrelas um Sonho sonhava com o Amor. O Infinito, cansado de ver o Sonho sonhar, não resistiu e perguntou?

____Sei que sonha com o Amor, e que vive hà séculos em função desse sonho. Que Amor é esse, Sonho?
____ Um Amor feito de amor.
____ Como assim? Um Amor feito de amor!! Ininteligível, louca essa sua afirmação.
____ Só quem sonha sabe que existe um Amor feito de amor.
____ E onde está esse Amor, Sonho?
____ Em todos os lugares do mundo visível e invisível.
____ Isso não é possível - a onipresença é Deus.
____ Eu fico pasma com você Infinito!! Afinal vc é ou não é infinito?
____ É lógico que sou.
____Pois não parece! Com esta compreensão do Amor você esta bem próximo do Finito.
____ Você esta me ofendendo… logo me colocar logo ao lado do Finito? Restringir-se assim?
____ Então meu querido comporte-se como Infinito.


O Infinito, um tanto emburrado, não levou o assunto adiante. Sabia perfeitamente que com um Sonho não se discute, nem se barganha. Assim sendo Infinito como de fato infinito era, refugiou-se numa Estrela , esquecendo que se refugiar numa Estrela implica, necessariamente, em sonhar.

As vezes deixa seu Sonho escapar para que nós, cá embaixo, possamos também sonhar, tornando-o visível no brilho de uma Estrela Cadente que risca em magia o firmamento. E esse brilho germina delicados poemas que os poetas colhem quando acordam!

Sandra Falcone


quando souberes
a que rio de tristeza
lançaste os sonhos
e os sorrisos
e o quase amor
envoltos nas sombras da tua verdade
diz-me!
…talvez eu os encontre
por entre as nuvens de espuma e sal
procurando poentes
nas areias frias
da praia da saudade…


(poema breve 17)

J.M. Restivo Braz

sábado, janeiro 20, 2007

fragmentos VIII


tu
não eu
és o escultor
desta estátua de memória
feita de escombros
eu?
exibo-a


Sandra Falcone
Retraços de mim

quarta-feira, janeiro 17, 2007

como esquecer


Como esquecer
o apito do
trem-m-m-m-m
no silêncio
daquelas
noites remotas
sob um céu
espetado de
estrelas
onde uma lua de estanho
brilhava!


Assef Kifouri

a sombra dos meus versos I




escondido
neste papel
branco
tem um poema
que não fala
... sangra